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Fui solicitada para falar sobre "O
Poder Público na Era do Império". Não tenho
o costume de aceitar encomendas mas, por uma feliz coincidência,
é exatamente sobre isso que gostaria de falar nesta noite.
Quando a linguagem é destroçada
e esvaziada de significado, como podemos entender o que é "poder
público"? Quando liberdade quer dizer ocupação,
quando democracia significa capitalismo neoliberal, quando reforma quer
dizer repressão, quando palavras como "capacitação"
e "fazer a paz" nos congelam o sangue —então,
"poder público" pode significar aquilo que se quiser
que ele signifique. Uma máquina para ajudar a desenvolver bíceps,
ou um produto de limpeza. Assim, a única coisa que precisarei
fazer será definir "poder público" à
medida em que prosseguirei nesse discurso, do modo que melhor me convir.
Na Índia, a palavra "público"
é agora uma palavra hindi. Quer dizer "pessoas". Em
hindi, temos a palavra "sarkar" e a palavra "público",
o governo e o povo. Inerente a esse uso é a pressuposição
de que governo é algo bem distinto das "pessoas". Essa
distinção tem a ver com o fato de que a luta pela liberdade,
na Índia, apesar de magnífica, não foi de modo
algum revolucionária. A elite da Índia calçou-se
fácil e elegantemente nos sapatos dos imperialistas britânicos.
Uma sociedade profundamente empobrecida, essencialmente feudal, tornou-se
um estado e uma nação independente e moderna. Mesmo hoje
em dia, depois de cinqüenta e sete anos, os verdadeiramente vencidos
encaram o governo como "mai-baap", ou seja, como o pai e a
mãe provedores. Aqueles que são de alguma forma mais radicais,
os que ainda têm fogo no estômago, vêem o governo
como "chor’’, o ladrão, aquele que arranca ou
arrebata todas as coisas.
Seja como for, para a maioria dos indianos,
"sarkar" é algo muito distinto de "público".
Entretanto, à medida em que se sobe na escada social, a distinção
entre "sarkar" e "público" fica embaçada.
A elite indiana, como a elite de qualquer parte do mundo, acha difícil
separar-se do estado. Ela vê como o estado, pensa como o estado,
fala como o estado.
Nos Estados Unidos, por outro lado, o
embaçamento da distinção entre "sarkar"
e "público" penetrou muito mais profundamente na sociedade.
Isso poderia ser um sinal de uma democracia robusta, mas infelizmente,
a realidade é um pouco mais complicada e menos ‘bonita’.
Entre outras coisas, isso tem a ver com a elaborada rede de paranóia
gerada pelo "sarkar" dos EUA, e que sai da mídia corporativa
e de Hollywood. Os estadunidenses comuns têm sido manipulados
para imaginar que são um povo assediado, cujo único refúgio
e proteção é o próprio governo. Se não
são os comunistas, é a Al-Qaeda. Se não é
Cuba, é a Nicarágua. Conseqüentemente, a mais poderosa
nação do mundo — com seu arsenal de armas sem paralelos,
sua história de ter declarado e patrocinado infinitas guerras,
e a única nação da História a ter efetivamente
usado bombas nucleares — é povoada por uma cidadania terrificada,
que se atira pelas janelas. Um povo atado ao estado não por causa
da assistência social ou da saúde pública, ou dos
direitos empregatícios, mas pelo medo.
Esse medo manufaturado sinteticamente
é usado para se obter o apoio do público para ulteriores
atos de agressão. E assim, se constrói uma espiral de
histeria, agora formalmente calibrada pelo programa do governo dos EUA
de Alertas de Terror em Assombroso Tecnicolor: fúcsia, turquesa,
rosa salmão.
Aos que olhamos do exterior, essa fusão
de "sarkar" e de "público" nos EUA, às
vezes se torna difícil distingüir as ações
do governo dos EUA das ações do povo estadunidense. É
essa confusão que alimenta o anti-americanismo no mundo. O governo
dos EUA e seus fiéis canais da mídia se aproveitam do
anti-americanismo e o ampliam. Todos conhecemos a rotina: "Porque
nos odeiam?" Eles odeiam nossas liberdades"…etc…
etc… Isso reforça o senso de isolamento entre o povo americano
e estreita ainda mais o abraço entre "sarkar" e "público".
Como Chapeuzinho Vermelho buscando proteção e carinho
na cama do lobo mau.
O uso da ameaça de um inimigo
externo para reunir e incitar a população é como
um burro velho montado pelos políticos há séculos
como modo de entrar pelas portas do poder. Mas será que o cidadão
comum não está cansado desse velho burro e está
procurando algo diferente? Uma antiga canção de um filme
hindu diz: "yeh public hai, yeh sab jaanti hai" ("o povo
sim é que sabe tudo"). Não seria maravilhoso se a
canção estivesse certa e os políticos errados?
Antes da invasão ilegal do Iraque
por Washington, uma pesquisa da Gallup International mostrou que em
nenhum país europeu havia um nível de apoio para uma guerra
unilateral superior a 11 por cento. Em 15 de fevereiro de 2003, semanas
antes da invasão, mais de dez milhões de pessoas marcharam
contra a guerra em todos os continentes, incluindo a América
do Norte. Mesmo assim, os governos de muitos países que se supõem
democráticos declararam a guerra.
A pergunta a ser feita é: a "democracia"
continua sendo democrática?
Os governos democráticos devem
prestar contas às pessoas que os elegeram? E, de modo crucial,
o "público" nos países democráticos é
responsável pelas ações do seu "sarkar"?
Se pararmos para pensar, a lógica
em que se baseia a guerra contra o terrorismo e a lógica em que
se baseia o terrorismo são exatamente as mesmas. Ambas obrigam
os cidadãos a pagar pelas ações de seus governos.
A Al-Qaeda fez o povo dos Estados Unidos pagar com suas vidas pelas
ações do seu governo na Palestina, na Arábia Saudita,
no Iraque e no Afeganistão. O governo dos Estados Unidos fez
o povo do Afeganistão pagar — com milhares de vidas —
pelas ações dos talibãs e o povo do Iraque pagar
— em centenas de milhares — pelas ações de Saddam
Hussein.
A diferença crucial é que
ninguém realmente votou na Al-Qaeda, nos talibãs, ou em
Saddam Hussein. Mas o presidente dos Estados Unidos foi eleito…
(bem… pelo menos é um modo de dizer). Poderíamos
dizer, então, que os cidadãos desses países são
mais responsáveis pelas ações de seus respectivos
governos do que os iraquianos o são pelas ações
de Saddam Hussein ou os afegãos pelas ações dos
talibãs?
E é o Deus de quem que vai decidir
qual é a "guerra justa" e qual não é?
George Bush pai disse uma vez: "Eu nunca pedirei desculpas em nome
dos EUA. Não me importa o que tiver acontecido." Quando
o presidente do país mais poderoso do mundo não precisa
se importar com os fatos, então pelo menos podemos estar certos
de que entramos na Era do Império.
Assim, o que significa poder público
na Era do Império? Será que isso ainda tem algum significado?
Será que ainda existe, na realidade?
Nesses tempos que se supõem democráticos,
o pensamento político convencional afirma que o poder público
se exerce nas urnas. Pessoas em dezenas de países do mundo todo
votarão neste ano. A maioria (não todos) terá o
governo por que votaram. Mas será que terão o governo
que desejam?
Neste ano, na Índia, votamos para
derrotar os nacionalistas hindus. Mas mesmo enquanto estávamos
celebrando, sabíamos que no que dizia respeito a bombas nucleares,
neoliberalismo, privatização, censura, mega-represas —
em cada um dos principais tópicos, exceto o nacionalismo hindu
descarado — o partido do Congresso e o do BJP não tinham
substanciais diferenças ideológicas. Sabíamos também
que foi o legado de cinqüenta anos do Partido do Congresso que
preparou o terreno cultural e politicamente para a extrema direita.
Foi também o Partido do Congresso que abriu pela primeira vez
os mercados da Índia à globalização corporativa.
Em sua campanha eleitoral, o Partido
do Congresso garantiu que estava disposto a revisar algumas de suas
políticas econômicas precedentes. Milhões de cidadãos
destituídos em toda a Índia votaram nas eleições.
O espetáculo da grande democracia da Índia foi mostrado
pelas televisões ao vivo — os pobres camponeses, os velhos
e os enfermos, as mulheres de véu com suas belas jóias
de prata, fazendo a viagem até os colégios eleitorais
de elefante ou em camelos ou nos carros de bois. Ao contrário
das previsões de todos os especialistas em Índia e das
sondagens de opinião pública, o Partido do Congresso ganhou
mais votos que qualquer outro partido. Os partidos comunistas da Índia
ganharam a maior participação nas eleições
de toda a sua história. Os pobres da Índia claramente
votaram contra as "reformas" econômicas neoliberais
e o crescente fascismo. Assim que foram contados os votos, esses pobres
foram despachados pela mídia corporativa como se fossem figurantes
extras de uma filmagem qualquer. Os canais de televisão mostravam
a tela partida em dois. Metade da tela mostrava o caos ao externo da
casa de Sônia Gandhi, a líder do Partido do Congresso,
enquanto se improvisava um governo de coalizão.
A outra metade mostrava, frente às
portas da Bolsa de Mumbai, os corretores em pânico ao pensarem
que o Partido do Congresso efetivamente honraria suas promessas e implementaria
o seu mandato eleitoral. Vimos o índice da bolsa Sensex subir,
descer e ir para todos os lados. Os meios de comunicação,
cujo valor das próprias ações estavam despencando,
noticiavam o colapso da Bolsa como se o Paquistão tivesse acabado
de lançar seus mísseis intercontinentais sobre Nova Déli.
Mesmo antes que o novo governo tivesse
tomado posse, políticos da linha de frente do Congresso faziam
declarações públicas visando assegurar aos investidores
e à mídia que a privatização das utilidades
públicas continuaria. Enquanto isso, o BJP, agora oposição,
começava a fazer objeções, de um modo ao mesmo
tempo cínico e cômico, opondo-se aos investimentos estrangeiros
diretos e a uma ulterior abertura dos mercados indianos.
Esta é a dialética hipócrita
adotada pela democracia eleitoral.
Quanto aos pobres da Índia, uma
vez fornecidos seus votos, espera-se que eles voltem bem comportados
para casa. A política será decidida sem que suas opiniões
contem.
E as eleições nos EUA?
Será que os votantes podem fazer escolhas verdadeiras?
É verdade que se John Kerry se
tornar presidente, alguns dos magnatas do petróleo e dos fundamentalistas
cristãos na Casa Branca mudarão. Poucos ficarão
sentidos de não ver mais circular na área figuras tão
descaradas como Dick Cheney ou Donald Rumsfeld ou John Ashcroft. Mas
a preocupação real é de que na nova administração,
as políticas deles continuarão. Que teremos um Bushismo
sem Bush.
As posições de poder real
— os banqueiros, os diretores executivos ou CEOs — não
são vulneráveis ao voto (… e, de todo jeito, são
eles que financiam os dois lados).
Infelizmente, a importância das
eleições nos EUA deterioraram em uma espécie competição
de personalidades. Um bate-boca sobre quem seria melhor para ocupar
o cargo de supervisionar o império. John Kerry acredita na idéia
de império com o mesmo fervor que George Bush.
O sistema político dos EUA foi
cuidadosamente confeccionado de modo a garantir que qualquer pessoa
que questione a bondade da estrutura do poder militar-industrial-corporativo
tenha sua entrada barrada nos portais do poder.
Nesse contexto, não surpreende
que nesta eleição sejam dois graduados da Universidade
de Yale, ambos membros da "Skull and Bones" (Caveira e Ossos)
— a mesma sociedade secreta, ambos milionários que brincam
de ser soldadinhos, ambos apregoando a guerra, e discutindo de modo
quase infantil sobre quem seria o cacique mais eficiente na guerra contra
o terror.
Como o Presidente Bill Clinton antes
dele, Kerry continuará a expansão do poder econômico
e a penetração militar dos EUA no mundo. Diz que teria
votado para autorizar Bush a declarar a guerra no Iraque, mesmo se tivesse
sabido que não havia armas de destruição em massa.
Promete enviar ainda mais tropas no Iraque. Disse, recentemente, que
apóia 100% as políticas de Bush relativas a Israel e a
Ariel Sharon. Diz que vai reter 98% dos cortes fiscais implementados
por Bush.
Dessa forma, sob uma histérica
troca de insultos, há um consenso quase absoluto. Parece que,
mesmo se o eleitorado votar por Kerry, vai continuar a ter Bush. Presidente
John Kerbush ou Presidente George Berry.
Não se trata de uma escolha real.
Mas de uma escolha aparente. Como escolher a marca de um detergente.
Tanto faz comprar Ivory Snow ou Tide, os dois são produtos da
Proctor & Gamble.
Isso não significa que cada posição
não tenha lá suas nuanças, que o Congresso e o
BJP, os New Labor e os Tories, os democratas e os republicanos sejam
a mesma coisa. Claro que não. Assim como Tide e Ivory Snow também
não são a mesma coisa. Tide é aditivado e Ivory
Snow passa por um detergente mais suave.
Na Índia, há uma diferença
entre um partido abertamente fascista (o BJP) e um partido que astutamente
joga uma comunidade contra a outra (o Congresso), lançando as
sementes do "comunalismo" que serão, depois, colhidas
habilidosamente pelo BJP.
Existem diferenças quanto ao Q.I.
e aos níveis de impiedade entre os candidatos à presidência
dos EUA deste ano. O movimento anti-guerra nos EUA tem feito um trabalho
fenomenal de expor as mentiras e a venalidade que levaram à invasão
do Iraque, apesar da propaganda e da intimidação que o
movimento teve que enfrentar.
O serviço prestado pelo movimento
não foi importante só para o povo dos EUA, mas para o
mundo todo. Mas agora, se o movimento anti-guerra apóia Kerry
abertamente, o resto do mundo poderá pensar que ele aprova suas
políticas de imperialismo "sensível". Será
que o imperialismo dos EUA é preferível, quando conta
com o apoio da ONU e dos países europeus? Será preferível
se a ONU solicitar que sejam enviados soldados da Índia e do
Paquistão para fazer a matança e morrer no Iraque, ao
invés dos soldados dos EUA? Será que a única mudança
que os iraquianos podem esperar é que as empresas francesas,
alemãs e russas compartilhem do saque representado pela ocupação
de seu país?
Será isso melhor ou pior para
nós que vivemos em nações subservientes? Será
melhor para o mundo ter um imperador mais inteligente no poder ou um
imperador mais estúpido? Será que essa é a única
escolha de que dispomos?
Desculpem, eu sei que essas são
perguntas incômodas e até mesmo brutais, mas elas precisam
ser formuladas.
O fato é que a democracia eleitoral
tornou-se um processo de cínica manipulação. Ela
nos oferece um espaço político extremamente reduzido,
hoje em dia. E seria muito ingênuo acreditar que esse espaço
constitua uma escolha real.
A crise da democracia moderna é
profunda.
No cenário global, além
da jurisdição dos governos soberanos, os instrumentos
internacionais de comércio e finanças supervisionam um
sistema complexo de leis e acordos multilaterais, os quais consolidaram
um sistema de apropriação que faria os próprios
colonialistas ficarem envegonhdos... Esse sistema permite a entrada
e a saída irrestrita de volumes maciços de capital especulativo
— hot money — para dentro e para fora dos países do
terceiro mundo, o que acaba ditando a política econômica
dos mesmos. Usando a ameaça da fuga de capitais como alavanca,
o capital internacional se insinua cada vez mais profundamente nessas
economias. Gigantescas corporações transnacionais estão
tomando posse das infra-estruturas essenciais e dos recursos naturais
desses países, seus minérios, sua água, sua eletricidade.
A Organização Mundial do Comércio, o Banco Mundial,
o Fundo Monetário Internacional e outras instituições
financeiras como o Banco Asiático de Desenvolvimento, praticamente
escrevem a política econômica e a legislação
parlamentar. Com essa combinação letal de arrogância
e impiedade, é a golpes de marreta que atacam as sociedades mais
frágeis, interdependentes e historicamente complexas, provocando
simplesmente a sua devastação.
Tudo isso ocorre sob a ondulação
da bandeira da "reforma".
Como conseqüência dessa reforma,
na África, Ásia e América Latina, milhares de pequenas
empresas e empreendimentos tiveram que fechar, milhões de trabalhadores
e camponeses perderam seus empregos e sua terra.
O jornal The Spectator de Londres nos
garante que "vivemos na era mais feliz, mais saudável e
mais pacífica de toda a história humana". Bilhões
de pessoas se perguntam: "Nós" quem? Onde vivem essas
pessoas? Como se chamam?
O que deve ser compreendido é
que a moderna democracia se baseia na premissa da aceitação
quase religiosa da nação- estado. Mas a globalização
corporativa não. O capital líquido não. Assim,
embora o capital necessite dos poderes coercitivos da nação-estado
para reprimir as revoltas das senzalas, esse tipo de arranjo garante
que nenhuma nação individual possa se opor à globalização
corporativa por conta própria.
A mudança radical não pode
e não será negociada pelos governos; poderá ser
colocada em prática somente pelos povos. Pelo público.
Um público que se pode dar as mãos além das respectivas
fronteiras nacionais.
Dessa forma, quando falamos de "Poder
Público na Era do Império", espero que não
seja presunçoso admitir que a única coisa que vale a pena
discutir seriamente é o poder de um público dissidente.
Um público que discorda do próprio conceito de império.
Um público que enfrenta aqueles que ocupam o poder — os
governos e as instituições internacionais, nacionais,
regionais e locais que apóiam e prestam serviço ao império.
Quais são os meios de protesto
disponíveis para as pessoas que desejam resistir ao império?
Por resistir não quero dizer somente expressar a dissidência,
mas forçar a mudança de modo eficaz. O império
tem uma vasta gama de cartões de visita. Usa diferentes armas
para arrombar diferentes mercados, do talão de cheques aos mísseis
cruise.
Para os pobres de muitos países,
o império nem sempre aparece na forma de um míssil cruise
e de tanques de guerra, como foi o caso no Iraque, ou no Afeganistão,
ou no Vietnã. Pode aparecer em suas vidas através de avatares
bem locais — perda de emprego, contas de eletricidade impossíveis
de pagar, corte no abastecimento de água, ações
de despejo de suas casas e suas terras. Tudo isso supervisionado pela
maquinaria repressiva do estado, da polícia, do exército,
do judiciário. É um processo de empobrecimento implacável
com relação ao qual os pobres têm grande familiaridade
histórica. O que o império faz é reforçar
e exacerbar essas desigualdades já existentes.
Até recentemente, era difícil
para as pessoas se verem como vítimas das conquistas do império.
Mas agora, os conflitos locais começaram a visualizar o seu papel
com uma clareza crescente. Entretanto, apesar de soar grandiloqüente,
o fato é que cada um está confrontando o império
a seu modo, de maneiras muito diferentes. No Iraque, na África
do Sul, na Índia, na Argentina e, de um modo diferente, até
nas ruas da Europa e dos Estados Unidos.
Os movimentos de resistência de
massas, os ativistas individuais, jornalistas, artistas e cineastas
se uniram para desmascarar o império. Eles estão dando
os nós aos pontos, transformando as representações
dos fluxos de caixa e os discursos dos conselhos de administração
em histórias reais de pessoas reais e desespero real. Eles mostraram
como o projeto neoliberal tem custado ao povo suas casas, suas terras,
seus empregos, sua liberdade, sua dignidade. Eles tornaram tangível
o intangível. O inimigo, que uma vez parecia in-CORP-óreo,
agora tem um CORPO real.
Trata-se de uma vitória imensa.
Foi forjada pela união de grupos políticos diferentes,
através de uma variedade de estratégias. Mas todos reconheceram
que o alvo de sua ira, seu ativismo e seu empenho era a mesma coisa.
Este foi o início da globalização real: a globalização
da dissidência.
Em termos gerais, há dois tipos
de movimentos de resistência de massas nos países do terceiro
mundo, hoje em dia. O Movimento dos Sem Terra no Brasil, o Movimento
Anti-Represas na Índia, os Zapatistas no México, o Fórum
Anti-Privatização na África do Sul, e centenas
de outros, todos lutando contra seus próprios governos soberanos,
os quais se tornaram meros agentes do projeto neoliberal. Em sua grande
maioria, se trata de conflitos radicais, lutando para mudar a estrutura
e o modelo de "desenvolvimento" escolhido para suas próprias
sociedades.
Daí, há aqueles que lutam
contra as ocupações neocoloniais oficiais e brutais, em
territórios contestados cujas fronteiras e limites foram demarcados
arbitrariamente pelas potências imperiais do século passado.
Na Palestina, no Tibete, na Tchetchênia, na Caxemira, e em vários
estados nas províncias do nordeste da Índia, há
conflitos por auto-determinação.
Muitos desses conflitos podem ter sido
radicais, até mesmo revolucionários quando começaram,
mas com freqüência a brutalidade da repressão que
enfrentaram os levaram a espaços conservadores e até mesmo
retrógrados, em que usam as mesmas estratégias violentas
e a mesma linguagem impregnada de nacionalismo religioso e cultural
que foi usada pelos estados que procuravam substituir.
Muitos dos soldados rasos nesses conflitos,
assim como aqueles que lutaram contra o apartheid na África do
Sul, verão que, uma vez vencida a ocupação, se
depararão imediatamente com outra guerra — uma guerra contra
o colonialismo econômico.
Enquanto isso, à medida em que
aumenta o abismo entre os ricos e os pobres e se intensifica a batalha
pelo controle dos recursos do mundo, reaparece o colonialismo econômico,
por meio da agressão militar formal.
O Iraque hoje é uma trágica
ilustração desse processo. Uma invasão ilegal.
Uma ocupação brutal em nome da liberação.
Leis sendo rescritas, permitindo a apropriação sem-vergonha
da riqueza e dos recursos do país, por corporações
aliadas à ocupação, e agora, a piada de um "governo
iraquiano" local.
Por essas razões, é absurdo
condenar-se a resistência à ocupação dos
EUA no Iraque, como se fosse organizada por terroristas ou insurgentes
ou partidários de Saddam Hussein. Afinal de contas, se os EUA
tivessem sido invadidos e ocupados, seria justo chamar as pessoas que
lutariam para liberar o seu país de terroristas ou insurgentes
ou bushistas?
A resistência iraquiana está
lutando na linha de frente da batalha contra o império. E, portanto,
aquela luta é a nossa também.
Como a maioria dos movimentos de resistência,
esse combina uma variedade de facções. Antigos baathistas,
liberais, islamistas, colaboracionistas frustrados, comunistas, etc.
Naturalmente, o movimento deve estar cheio de oportunismo, rivalidades
locais, demagogia e criminalidade. Porém se formos dar nosso
apoio somente a movimentos completamente íntegros e puros, então
nenhuma resistência merecerá nosso apoio.
Isso não significa que não
deveríamos nunca criticar os movimentos de resistência.
Muitos deles padecem de falta de democracia, de iconização
de seus "líderes", de falta de transparência,
de falta de visão e direção. Mas, sobretudo, sofrem
de demonização, repressão e falta de recursos.
Antes de decidirmos o nível de
pureza da resistência iraquiana para conduzir sua batalha secular,
feminista, democrática e não violenta, deveríamos
afiar o nosso lado da resistência forçando os EUA e seus
aliados a se retirarem do Iraque.
O primeiro confronto militante nos EUA
entre o movimento pela justiça global e a junta neoliberal teve
lugar durante a conferência da OMC em Seattle, em dezembro de
1999. Para muitos movimentos de massas em países em desenvolvimento
e que estavam lutando isoladamente, Seattle foi o primeiro sinal alentador
de que sua ira e visão de um outro tipo de mundo era compartilhada
por cidadãos de países imperialistas.
Em janeiro de 2001, em Porto Alegre,
Brasil, 20.000 ativistas, estudantes, cineastas — entre as melhores
‘cabeças’ do mundo — se uniram para compartilhar
suas experiências e trocar idéias sobre como confrontar
o império. Era o nascimento do agora histórico Fórum
Social Mundial. Foi a primeira reunião oficial de um tipo distinto
de "poder público", entusiasmante, anarquista, não
doutrinado, cheio de energia. O lema do FSM é "Um Outro
Mundo É Possível" . Tornou-se uma plataforma onde
centenas de debates, conversas e seminários ajudaram a refinar
a visão de que tipo de mundo esse deveria ser.
Em janeiro de 2004, o 4º FSM ocorreu
em Mumbai, Índia, atraindo 200.000 participantes. Nunca participei
de um encontro mais energizante. Foi um sinal do sucesso do fórum
social, ignorado pelos principais meios de comunicação
do país. Mas agora, o FSM está ameaçado devido
ao seu próprio sucesso. A atmosfera segura, aberta e festiva
do fórum possibilitou aos políticos e às agências
não governamentais que estão envolvidas nos sistemas político
e econômico combatidos pelo fórum, de poderem participar
e se fazerem ouvir.
Outro perigo é que o FSM, que
tem desempenhado um papel tão vital no movimento pela justiça
global, corra o risco de se tornar um fim em si mesmo. Somente o trabalho
necessário para a organização do fórum a
cada ano chega a consumir as energias de alguns dos melhores ativistas.
Se as conversações sobre a resistência substituírem
a desobediência civil real, então o FSM poderia se tornar
uma vantagem para aqueles contra os quais ele foi criado. O Fórum
deve acontecer e deve crescer, mas precisamos encontrar modos de canalizar
nossas conversações no sentido da ação concreta.
À medida em que os movimentos
de resistência começaram a se estender além das
fronteiras nacionais e representar uma ameaça real, os governos
desenvolveram suas próprias estratégias para lidar com
eles. Elas variam da cooptação à repressão.
Vou falar a respeito de três dos
perigos contemporâneos que enfrentam os movimentos de resistência:
o difícil ponto de encontro entre os movimentos de massas e a
mídia de massas, os riscos da ONG-ização da resistência,
e o confronto entre os movimentos de resistência e os estados
cada vez mais repressivos.
O lugar em que a mídia de massas
encontra os movimentos de massas é bastante complicado.
Os governos se deram conta de que uma
mídia que funciona e é movida através da sucessão
de crises não pode se dar ao luxo de ficar parada por muito tempo
no mesmo assunto. Como os estabelecimentos comerciais, que precisam
de um fluxo e de um volume de caixa, a mídia precisa de um fluxo
e de um volume de crises. Inteiros países se convertem em notícia
obsoleta. Deixam de existir, e a obscuridão se torna ainda maior
do que quando um foco de luz tinha se pousado brevemente sobre eles.
Vimos isso acontecer no Afeganistão quando os soviéticos
se retiraram. E agora, depois da operação Enduring Freedom
(Liberdade Duradoura) a qual colocou no poder Hamid Karzai, representante
da CIA, atirando o Afeganistão nas mãos dos caciques da
guerra, mais uma vez.
Outro agente da CIA, Iyad Allawi, foi
instalado no Iraque. Assim, quem sabe, chegou a hora da mídia
ir embora dali também.
Enquanto os governos refinam a arte de
esperar que a crise passe, os movimentos de resistência estão
se emaranhando crescentemente em um vórtice de produção
de crises, procurando modos de manufaturá-las em formatos de
fácil consumo e de uso amigável aos espectadores.
Cada movimento popular que se respeite
a si próprio, cada "questão" deve ter seu próprio
balão publicitário flutuando no ar, propagandeando sua
marca e seu propósito.
Por esse motivo, mortes por inanição
são propagandas mais eficazes que o empobrecimento de milhões
de pessoas mal nutridas, as quais não dão ibope. As represas
não merecem notícia, até que a devastação
que causam caia bem na televisão. (E daí, é tarde
demais.)
Ficar dias em pé na água,
enquanto a represa vai se enchendo, olhando a própria casa e
pertences flutuarem, como protesto contra a construção
de uma grande represa costumava ser uma estratégia eficaz, mas
já não o é mais. A mídia se cansou mortalmente
dessa cena. Assim, para milhares de pessoas deslocadas pelas represas
a alternativa é procurar novos truques ou desistir da luta.
Manifestações cheias de
cores e as marchas de fim de semana são vitais, mas sozinhas,
não têm o poder suficiente para impedir as guerras. As
guerras pararão somente quando os soldados se recusarem de lutar,
quando os trabalhadores se recusarem de carregar as armas nos navios
e nas aeronaves, quando as pessoas boicotarem os postos econômicos
do império que estão disseminados pelo globo.
Se quisermos reclamar o espaço
da desobediência civil, teremos que nos livrar da tirania do jornalismo
de crise, com seu medo do trivial. Precisamos usar nossa experiência,
nossa imaginação e nossa arte para interrogar os instrumentos
do estado que garantem que a "normalidade" permaneça
o que é: cruel, injusta, inaceitável. Devemos expor as
políticas e os processos que fazem com que as coisas de cada
dia — a comida, a água, a moradia e a dignidade — sejam
um sonho tão distante para as pessoas comuns. O verdadeiro ataque
preventivo significa compreender que as guerras são o resultado
final de uma paz imperfeita e injusta.
No que toca aos movimentos de resistência
de massas, o fato é que nenhum tipo de cobertura de mídia
pode ser comparado à força da massa em campo. Não
há opção comparável, na verdade, à
velha e boa mobilização política.
A globalização corporativa
aumentou a distância entre aqueles que tomam decisões e
aqueles que têm que sofrer os efeitos daquelas decisões
tomadas. Fóruns como o FSM permitem que os movimentos de resistência
local se conectem com as suas contrapartidas nos países ricos.
Essa aliança é importante e formidável. Por exemplo,
quando a primeira represa privada da Índia, Maheshwar Dam, foi
construída, alianças entre a Narmada Bachao Andolan (a
NBA), a organização alemã Urgewald, a Declaração
de Berna, na Suíça, e a International Rivers Network em
Berkeley trabalharam em conjunto para forçar a saída de
uma série de bancos e corporações internacionais
do projeto. Isso não teria sido possível se não
houvesse um movimento de resistência extremamente sólido
no terreno. A voz daquele movimento local foi amplificada por defensores
do movimento em âmbito global, desconcertando os investidores
e obrigando-os a se retirarem.
Um número infinito de alianças
similares, tendo como alvo projetos específicos e corporações
específicas ajudaria a fazer um outro mundo possível.
Deveríamos começar com as corporações que
fizeram negócios com Saddam Hussein e que agora estão
lucrando com a devastação e a ocupação do
Iraque.
Um segundo risco para os movimentos de
massas é a ONG-ização da resistência. Será
fácil distorcer o que vou dizer, fazendo com que isso pareça
uma acusação contra todas as ONGs, o que seria falso.
Mas apesar das turvas águas de um contexto estudado para que
falsas ONGs chupem as subvenções ou evadam impostos (em
estados como Bihar, elas são doadas como dote), é claro
que existem ONGs de grande valor. Mas é importante considerar
o fenômeno das ONGs em um contexto político mais amplo.
Na Índia, por exemplo, o boom
das ONGs subvencionadas começou no fim dos anos 80 e durante
os anos 90. Coincidiu com a abertura dos mercados do país ao
neoliberalismo. Na época, o estado indiano, mantendo os requisitos
de ajuste estrutural, estava retirando seu apoio financeiro ao desenvolvimento
rural, agricultura, energia, transporte e saúde. Enquanto o estado
abdicava do seu papel tradicional, as ONGs se voltaram para trabalhar
justamente nessas áreas. A diferença, naturalmente, é
que os fundos disponíveis a elas correspondiam a uma minúscula
fração do corte efetivo feito nas despesas públicas.
A maioria das grandes ONGs são financiadas e patrocinadas pelas
agências de desenvolvimento, as quais, por sua vez, são
financiadas pelos governos ocidentais, o Banco Mundial, a ONU, e algumas
corporações multinacionais. Embora seja possível
que não se trate exatamente das mesmas agências, elas certamente
são parte da mesma formação política que
supervisiona o projeto neoliberal e que demanda cortes drásticos
dos governos em seus gastos.
Por que motivo essas agências financiam
as ONGs? Será que só pelo antigo afã missionário?
Culpa? É um pouco mais que isso. As ONGs dão a impressão
de estarem preenchendo o vácuo criado pelo estado em retirada.
E elas o estão preenchendo, só que de uma maneira materialmente
inconseqüente. Sua contribuição real é aplacar
a ira política, e repartir como ajuda ou caridade aquilo que,
na realidade, caberia ao povo como direito.
Elas alteram a psique pública.
Tornam as pessoas vítimas dependentes e aparam as pontas da resistência
política. As ONGs formam uma espécie de amortecedor entre
o "sarkar" e o "público". Entre o império
e seus vassalos. Elas se tornaram os árbitros, os intérpretes,
os facilitadores.
A longo prazo, as ONGs são responsáveis
perante seus financiadores, não com relação às
pessoas para as quais trabalham. Elas são aquilo que os botânicos
chamam de "espécie indicadora". É quase como
se quanto maior a devastação causada pelo neoliberalismo,
maior o número de ONGs que aparecem. Nada consegue ilustrar isso
de modo mais contundente do que o fenômeno dos EUA se preparando
para invadir um país e, ao mesmo tempo, preparando as ONGs para
irem fazer a limpeza dos despojos.
Para se certificarem de que o financiamento
não será posto em risco e de que os governos dos países
em que trabalham lhes permitirão o funcionamento, as ONGs devem
apresentar seu trabalho dentro de uma estrutura superficial, mais ou
menos isenta de qualquer contexto político ou histórico.
De todo jeito, um contexto histórico ou político inconveniente.
Os pedidos de socorro dos países
pobres e das zonas de guerra, veiculados como apolíticos (e,
portanto, extremamente políticos), criam a imagem de que o povo
(de péle escura) daqueles países (com população
de péle escura) seja equivalente a uma vítima patológica.
Mais um indiano mal nutrido, mais um etiópico que morre de fome,
mais um sudanês mutilado… precisando da ajuda do homem branco.
Sem querer, essas imagens reforçam os estereótipos racistas
e reafirmam as conquistas, os confortos e a compaixão (o amor
do tipo: "é tudo para o seu bem…") da civilização
ocidental. As ONGs são os missionários seculares do mundo
moderno.
Por fim — em uma menor escala, porém
mais insidiosa— o capital disponível para as ONGs desempenha
o mesmo papel na política alternativa que o capital especulativo
que entra e sai das economias dos países pobres. Começa
ditando a ordem do dia, transforma confronto em negociação,
despolitiza a resistência, interfere junto aos movimentos populares
locais que têm sido tradicionalmente auto-suficientes. As ONGs
têm fundos com os quais podem dar empregos a pessoas que, de outra
forma, se tornariam ativistas nos movimentos de resistência, mas
agora podem se sentir engajadas em algo mais imediato e criativo (à
medida em que ganham a vida com seus ideais). A resistência política
real não oferece esses tipos de benefício.
A Ong-ização da política
ameaça transformar a resistência em uma fonte de empregos
razoáveis, bem comportados, assalariados e em tempo integral.
Com alguns benefícios extras. A resistência real tem conseqüências
reais. E não paga salários.
Isso nos leva ao terceiro perigo de que
gostaria de falar: a natureza letal do atual confronto entre os movimentos
de resistência e a realidade de estados cada vez mais repressivos.
Entre o poder público e os agentes do império.
Onde quer que a resistência civil
tenha mostrado os mais brandos sinais de estar evoluindo de ações
simbólicas a qualquer coisa remotamente mais ameaçadora,
a repressão se mostra implacável. Constatamos isso nas
manifestações de Seattle, em Miami, Göthenberg, em
Gênova.
Nos Estados Unidos, há o USA PATRIOT
Act, o qual se tornou um esquema para a promulgação de
leis antiterroristas, aprovadas em vários países do mundo.
As liberdades estão sendo cerceadas em nome de se proteger a
liberdade. E, uma vez que renunciamos às nossas liberdades, só
uma revolução poderá trazê-las de volta.
Certos governos têm vastíssima
experiência em cerceamento das liberdades, e ainda continuarem
a dar a impressão de que está tudo bem. O governo da Índia,
veterano nesse jogo, pode lançar uma luz no assunto.
Ao longo dos anos, o governo da Índia
passou um número imenso de leis que permitiram tratar qualquer
pessoa de terrorista, insurgente, militante. Assim, temos a Lei de Poderes
Especiais das Forças Armadas (Armed Forces Special Powers Act),
a Lei de Segurança Pública (Public Security Act), a Lei
de Segurança para Áreas Especiais (Special Areas Security
Act), a Lei para Gangsters (Gangster Act), a Lei de Áreas Terroristas
e de Perturbação (Terrorist and Disruptive Areas Act)
(a qual, oficialmente, não está mais em vigência,
embora ainda haja pessoas esperando julgamento devido à mesma)
e, mais recentemente, a Lei de Prevenção contra o Terrorismo
(POTA, ou Prevention of Terrorism Act), o antibiótico de amplo
espectro para curar a doença da dissidência.
Outras medidas estão sendo tomadas,
tais como sentenças em tribunais cujo efeito é cercear
a liberdade de expressão, o direito dos funcionários públicos
de declararem greve, o direito à vida e ao sustento. Na Índia,
os tribunais começaram a micro-gerenciar nossas vidas. Sem contar
o fato de que criticar os tribunais constitui um delito.
Mas voltando às iniciativas antiterroristas,
na última década, o número de pessoas que morreram
pela polícia e pelas forças de segurança alcançou
dezenas de milhares. No estado de Andhra Pradesh (a garota propaganda
da globalização corporativa da Índia), uma média
de 200 "extremistas" morrem, naquilo a que chamam de "encontros",
a cada ano. A polícia de Mumbai se gaba do número de "gangsters"
que morreram em tiroteios. Na Caxemira, cuja situação
é praticamente de guerra, estima-se que 80.000 pessoas tenham
sido assassinadas desde 1989. Milhares simplesmente "desapareceram".
Nas províncias do nordeste do país, a situação
é similar.
Nos últimos anos, a polícia
da Índia tem aberto fogo contra pessoas desarmadas, sobretudo
das castas dalit e adivasi. O seu método preferido é matá-las
e, em seguida, chamá-las de terroristas. E a Índia não
é o único país onde isso ocorre. Coisas similares
acontecem na Bolívia, no Chile e na África do Sul. Na
era do neoliberalismo, a pobreza é um crime, e protestar contra
a pobreza vem sendo definido cada vez mais freqüentemente como
terrorismo.
Na Índia, a Lei de Prevenção
contra o Terrorismo (Prevention of Terrorism Act, ou POTA) é
chamada com freqüência de Lei de Produção do
Terrorismo. Ela é versátil, inclui tudo, e pode ser aplicada
a qualquer um, seja um agente da Al-Qaeda seja um motorista de ônibus
descontente. Como todas as leis antiterrorismo, sua genialidade está
no fato de que ela é seja o que for que o governo queira que
ela seja. Depois dos progroms de 2002 em Gujarat, apoiados pelo estado,
em que morreram cerca de 2.000 muçulmanos, assassinados por multidões
hindus e cerca de 150.000 foram despejados de sus casas, 287 pessoas
foram acusadas, sob a POTA. Dessas, 286 eram muçulmanas e uma
era sikh.
A POTA permite utilizar como evidência
em julgamentos as confissões extraídas do réu enquanto
o mesmo está em custódia da polícia. De fato, a
tortura tende a substituir a investigação. O Centro de
Documentação de Direitos Humanos da Ásia Meridional
(South Asia Human Rights Documentation Center) reporta que na Índia
se verifica o número mais alto de torturas e mortes sob custódia,
no mundo. Os registros governamentais mostram que houve 1.307 mortes
sob custódia judicial, e isso somente para o ano de 2002.
Há poucos meses, eu fiz parte
de um tribunal do povo a respeito da POTA. Durante um período
de dois dias, escutamos testemunhos estarrecedores daquilo que está
acontecendo em nossa maravilhosa democracia. Tudo o que se possa imaginar
— desde pessoas forçadas a beber urina, outras obrigadas
a se despirem, humilhações, choques elétricos,
queimaduras com pontas de cigarros acesos, barras de ferro inseridas
no ânus, surras e pontapés.
O novo governo prometeu abolir a POTA.
Eu ficaria surpresa se isso acontecesse antes que outra legislação
similar, mas com um nome diferente, tenha sido aprovada. Deixará
de ser POTA e passará a ser MOTA, ou qualquer coisa assim.
Quando se fecham todas as portas para
a dissidência não violenta, e quando qualquer pessoa que
protesta contra a violação de seus direitos humanos é
taxada de terrorista, será que deveríamos ficar tão
surpresos com o fato de que em vastas partes do país é
crescente o número de pessoas que acreditam em luta armada e
se encontram mais ou menos além do controle do estado? Na Caxemira,
nas províncias do nordeste, em muitas partes de Madhya Pradesh,
em Chattisgarh, Jharkhand e em Andhra Pradesh. As pessoas destas regiões
se encontram encurraladas entre a violência dos militantes e a
violência do estado.
Na Caxemira, o exército indiano
estima que de 3.000 a 4.000 militantes estejam na ativa, a qualquer
momento. Para controlá-los, o governo indiano emprega cerca de
500.000 soldados. Obviamente, não são só os militantes
que o exército procura controlar, mas toda uma população
de pessoas humilhadas e infelizes, que vêem o exército
indiano como uma força de ocupação.
A Lei de Poderes Especiais das Forças
Armadas (Armed Forces Special Powers Act) permite que, não somente
os oficiais de alto escalão, mas até mesmo sub-oficiais
recém contratados possam usar a força e até matar
qualquer pessoa suspeita de perturbar a ordem pública. Ela foi
imposta primeiramente no estado de Manipur, em 1958. Hoje, ela é
aplicada em praticamente todo o nordeste e na Caxemira. A documentação
dos episódios de tortura, desaparecimentos, mortes sob custódia,
estupro e execução sumária pelas forças
de segurança são de dar nó no estômago.
Em Andhra Pradesh, no coração
da Índia, o grupo militante Marxist-Leninist Peoples' War Group
— que há anos tem estado engajado em lutas violentas e tem
sido o alvo principal de muitos dos falsos "encontros" com
a polícia de Andhra — fez a sua primeira reunião
pública no dia 28 de julho de 2004, na cidade de Warangal.
Centenas de milhares de pessoas participaram
da reunião. Sob a POTA, todas elas são consideradas terroristas.
Será que vão ser todas detidas em algum equivalente indiano
de Guantânamo?
Todo o nordeste da Índia e o vale
da Caxemira estão em fermento. O que fará o governo com
esses milhões de pessoas?
Hoje em dia, não há nenhum
tema de discussão mais importante do que as estratégias
de resistência. E a escolha da estratégia não está
inteiramente nas mãos do público. Está também
nas mãos do "sarkar".
Afinal de contas, quando os EUA invadem
e ocupam o Iraque, como foi feito, com uma força militar tão
avassaladora, será que se pode esperar que a resistência
seja do tipo convencional? (É claro que, mesmo se ela fosse convencional,
ainda assim seria chamada de terrorista.) Parece estranho, mas, o arsenal
de armas do governo dos EUA e sua potência aérea e de artilharia
sem paralelos tornam o terrorismo algo de inevitável. O povo
acaba compensando sua falta de dinheiro e poder com estratégias
e astúcia.
Nesses tempos de ansiedade e desespero,
se os governos não fizerem o impossível para respeitar
a resistência não violenta, então acabam favorecendo
aqueles que optam pela violência. A condenação do
terrorismo pelos governos não é crível, se esses
governos não se mostrarem abertos à mudança através
da dissidência não violenta.
Contudo, o que vemos é o esmagamento
dos movimentos de resistência não violenta. Todo tipo de
mobilização ou organização de massas está
sendo comprada, ou destruída, ou simplesmente ignorada.
Enquanto isso, os governos e a mídia
corporativa, sem nos esquecermos da indústria cinematográfica,
dedicam seu tempo, atenção, tecnologia, pesquisa e admiração
à guerra contra o terrorismo. A violência foi deificada.
A mensagem que lançam é
perturbadora e perigosa: para expressar um descontentamento, a violência
é mais eficaz que a não violência.
À medida em que aumenta o abismo
entre ricos e pobres, e quando se faz mais urgente a necessidade de
apropriação e controle dos recursos do mundo para se alimentar
a gigantesca máquina capitalista, será que haverá
apenas uma escalada do descontentamento?
Para aqueles entre nós que se
encontram no lado errado do império, a humilhação
está ficando insuportável.
Cada uma das crianças iraquianas
assassinadas pelos Estados Unidos era como um filho nosso. Cada um dos
prisioneiros torturados em Abu Ghraib era como um nosso camarada. Cada
um de seus gritos era como um grito nosso. Quando eles foram humilhados,
nós é que fomos humilhados. Os soldados dos EUA lutando
no Iraque — em sua maioria voluntários recrutados pela pobreza
de suas pequenas cidades e dos bairros urbanos mais pobres — são
vítimas, da mesma forma que os iraquianos, do mesmo processo
horrendo, que lhes exige a morte por uma vitória que nunca lhe
pertencerá.
Os mandarins do mundo corporativo, os
diretores executivos, os banqueiros, os políticos, os juízes
e generais nos olham de cima para baixo, balançando a cabeça
com uma expressão severa: "Não há alternativa",
dizem. E soltam os cães de guerra.
Então, das ruínas do Afeganistão,
dos despojos do Iraque e da Tchetchênia, das ruas da Palestina
ocupada e das montanhas da Caxemira, das montanhas e planícies
da Colômbia e das florestas de Andhra Pradesh e de Assam chega
a resposta terrificante: "Não há alternativa ao terrorismo."
Terrorismo. Luta armada. Insurgência. Cada um lhe dá o
nome que quiser.
O terrorismo é desalmado, feio,
desumanizador tanto para aqueles que o perpetram quanto para as vítimas.
Contudo, a guerra também é isso tudo. Poderíamos
dizer que o terrorismo é a privatização da guerra.
Os terroristas são os mercadores do livre mercado da guerra.
São pessoas que não acreditam que o estado tenha o monopólio
do uso legítimo da violência.
A sociedade humana está embarcando
para um lugar terrível.
Obviamente, há uma alternativa
ao terrorismo. Ela se chama justiça.
Chegou a hora de reconhecermos que não
é a quantidade de armas nucleares ou o domínio de amplo
espectro ou as bombas de fragmentação "daisy cutters"
ou os espúrios conselhos de governo e loya jirgas que poderão
comprar a paz às custas da justiça.
A ambição de hegemonia
e preponderância de alguns terá como contrapartida o desejo
mais intenso de dignidade e justiça de outros.
A forma que tomará essa batalha,
se ela será bonita ou sangrenta, dependerá de nós.
TIDE? OR IVORY SNOW?
Public Power in the Age of Empire
Transcript of full speech by Arundhati
Roy in San Francisco, California on August 16th, 2004.
Copyright 2004 Arundhati Roy.
For permission to reprint contact
I've been asked to speak about "Public
Power in the Age of Empire." I'm not used to doing as I'm told, but
by happy coincidence, it's exactly what I'd like to speak about tonight.
When language has been butchered and
bled of meaning, how do we understand "public power"? When freedom means
occupation, when democracy means neoliberal capitalism, when reform
means repression, when words like "empowerment" and "peacekeeping" make
your blood run cold - why, then, "public power" could mean whatever
you want it to mean. A biceps building machine, or a Community Power
Shower. So, I'll just have to define "public power" as I go along, in
my own self-serving sort of way.
In India, the word public is now a Hindi
word. It means people. In Hindi, we have sarkar and public, the government
and the people. Inherent in this use is the underlying assumption that
the government is quite separate from "the people." This distinction
has to do with the fact that India's freedom struggle, though magnificent,
was by no means revolutionary. The Indian elite stepped easily and elegantly
into the shoes of the British imperialists. A deeply impoverished, essentially
feudal society became a modern, independent nation state. Even today,
fifty seven years on to the day, the truly vanquished still look upon
the government as mai-baap, the parent and provider. The somewhat more
radical, those who still have fire in their bellies, see it as chor,
the thief, the snatcher-away of all things.
Either way, for most Indians, sarkar
is very separate from public. However, as you make your way up India's
social ladder, the distinction between sarkar and public gets blurred.
The Indian elite, like the elite anywhere in the world, finds it hard
to separate itself from the state. It sees like the state, it thinks
like the state, it speaks like the state.
In the United States, on the other hand,
the blurring of the distinction between sarkar and public has penetrated
far deeper into society. This could be a sign of a robust democracy,
but unfortunately, it's a little more complicated and less pretty than
that. Among other things, it has to do with the elaborate web of paranoia
generated by the U.S. sarkar and spun out by the corporate media and
Hollywood. Ordinary Americans have been manipulated into imagining they
are a people under siege whose sole refuge and protector is their government.
If it isn't the Communists, it's al-Qaeda. If it isn't Cuba. it's Nicaragua.
As a result, this, the most powerful nation in the world - with its
unmatchable arsenal of weapons, its history of having waged and sponsored
endless wars, and the only nation in history to have actually used nuclear
bombs - is peopled by a terrified citizenry, jumping at shadows. A people
bonded to the state not by social services, or public health care, or
employment guarantees, but by fear.
This synthetically manufactured fear
is used to gain public sanction for further acts of aggression. And
so it goes, building into a spiral of self-fulfilling hysteria, now
formally calibrated by the U.S government's Amazing Technicolored Terror
Alerts: fuchsia, turquoise, salmon pink.
To outside observers, this merging of
sarkar and public in the United States sometimes makes it hard to separate
the actions of the U.S. government from the American people. It is this
confusion that fuels anti-Americanism in the world. Anti-Americanism
is then seized upon and amplified by the U.S. government and its faithful
media outlets. You know the routine: "Why do they hate us? They hate
our freedoms" . . . etc. . . . etc. This enhances the sense of isolation
among American people and makes the embrace between sarkar and public
even more intimate. Like Red Riding Hood looking for a cuddle in the
wolf's bed.
Using the threat of an external enemy
to rally people behind you is a tired old horse, which politicians have
ridden into power for centuries. But could it be that ordinary people
are fed up of that poor old horse and are looking for something different?
There's an old Hindi film song that goes yeh public hai, yeh sab jaanti
hai (the public, she knows it all). Wouldn't it be lovely if the song
were right and the politicians wrong?
Before Washington's illegal invasion
of Iraq, a Gallup International poll showed that in no European country
was the support for a unilateral war higher than 11 percent. On February
15, 2003, weeks before the invasion, more than ten million people marched
against the war on different continents, including North America. And
yet the governments of many supposedly democratic countries still went
to war.
The question is: is "democracy" still
democratic?
Are democratic governments accountable
to the people who elected them? And, critically, is the public in democratic
countries responsible for the actions of its sarkar?
If you think about it, the logic that
underlies the war on terrorism and the logic that underlies terrorism
is exactly the same. Both make ordinary citizens pay for the actions
of their government. Al-Qaeda made the people of the United States pay
with their lives for the actions of their government in Palestine, Saudi
Arabia, Iraq, and Afghanistan. The U.S government has made the people
of Afghanistan pay in their thousands for the actions of the Taliban
and the people of Iraq pay in their hundreds of thousands for the actions
of Saddam Hussein.
The crucial difference is that nobody
really elected al-Qaeda, the Taliban, or Saddam Hussein. But the president
of the United States was elected (well ... in a manner of speaking).
The prime ministers of Italy, Spain,
and the United Kingdom were elected. Could it then be argued that citizens
of these countries are more responsible for the actions of their government
than Iraqis are for the actions of Saddam Hussein or Afghans for the
Taliban?
Whose God decides which is a "just war"
and which isn't? George Bush senior once said: "I will never apologize
for the United States. I don't care what the facts are." When the president
of the most powerful country in the world doesn't need to care what
the facts are, then we can at least be sure we have entered the Age
of Empire.
So what does public power mean in the
Age of Empire? Does it mean anything at all? Does it actually exist?
In these allegedly democratic times,
conventional political thought holds that public power is exercised
through the ballot. Scores of countries in the world will go to the
polls this year. Most (not all) of them will get the governments they
vote for. But will they get the governments they want?
In India this year, we voted the Hindu
nationalists out of office. But even as we celebrated, we knew that
on nuclear bombs, neoliberalism, privatization, censorship, big dams
- on every major issue other than overt Hindu nationalism - the Congress
and the BJP have no major ideological differences. We know that it is
thefifty-year legacy of the Congress Party that prepared the ground
culturally and politically for the far right. It was also the Congress
Party that first opened India's markets to corporate globalization.
In its election campaign, the Congress
Party indicated that it was prepared to rethink some of its earlier
economic policies. Millions of India's poorest people came out in strength
to vote in the elections. The spectacle of the great Indian democracy
was telecast live - the poor farmers, the old and infirm, the veiled
women with their beautiful silver jewelry, making quaint journeys to
election booths on elephants and camels and bullock carts. Contrary
to the predictions of all India's experts and pollsters, Congress won
more votes than any other party. India's communist parties won the largest
share of the vote in their history. India's poor had clearly voted against
neoliberalism's economic "reforms" and growing fascism. As soon as the
votes were counted, the corporate media dispatched them like badly paid
extras on a film set. Television channels featured split screens. Half
the screen showed the chaos outside the home of Sonia Gandhi, the leader
of the Congress Party, as the coalition government was cobbled together.
The other half showed frenzied stockbrokers
outside the Mumbai Stock Exchange, panicking at the thought that the
Congress Party might actually honor its promises and implement its electoral
mandate. We saw the Sensex stock index move up and down and sideways.
The media, whose own publicly listed stocks were plummeting, reported
the stock market crash as though Pakistan had launched ICBMs on New
Delhi.
Even before the new government was formally
sworn in, senior Congress politicians made public statements reassuring
investors and the media that privatization of public utilities would
continue. Meanwhile the BJP, now in opposition, has cynically, and comically,
begun to oppose foreign direct investment and the further opening of
Indian markets.
This is the spurious, evolving dialectic
of electoral democracy.
As for the Indian poor, once they've
provided the votes, they are expected to bugger off home. Policy will
be decided despite them.
And what of the U.S. elections? Do U.S.
voters have a real choice?
It's true that if John Kerry becomes
president, some of the oil tycoons and Christian fundamentalists in
the White House will change. Few will be sorry to see the back of Dick
Cheney or Donald Rumsfeld or John Ashcroft and their blatant thuggery.
But the real concern is that in the new administration their policies
will continue. That we will have Bushism without Bush.
Those positions of real power - the bankers,
the CEOs - are not vulnerable to the vote (. . . and in any case, they
fund both sides).
Unfortunately the importance of the U.S
elections has deteriorated into a sort of personality contest. A squabble
over who would do a better job of overseeing empire. John Kerry believes
in the idea of empire as fervently as George Bush does.
The U.S. political system has been carefully
crafted to ensure that no one who questions the natural goodness of
the military-industrial-corporate power structure will be allowed through
the portals of power.
Given this, it's no surprise that in
this election you have two Yale University graduates, both members of
Skull and Bones, the same secret society, both millionaires, both playing
at soldier-soldier, both talking up war, and arguing almost childishly
about who will lead the war on terror more effectively.
Like President Bill Clinton before him,
Kerry will continue the expansion of U.S. economic and military penetration
into the world. He says he would have voted to authorize Bush to go
to war in Iraq even if he had known that Iraq had no weapons of mass
destruction. He promises to commit more troops to Iraq. He said recently
that he supports Bush's policies toward Israel and Ariel Sharon 100
percent. He says he'll retain 98% of Bush's tax cuts.
So, underneath the shrill exchange of
insults, there is almost absolute consensus. It looks as though even
if Americans vote for Kerry, they'll still get Bush. President John
Kerbush or President George Berry.
It's not a real choice. It's an apparent
choice. Like choosing a brand of detergent. Whether you buy Ivory Snow
or Tide, they're both owned by Proctor & Gamble.
This doesn't mean that one takes a position
that is without nuance, that the Congress and the BJP, New Labor and
the Tories, the Democrats and Republicans are the same. Of course, they're
not. Neither are Tide and Ivory Snow. Tide has oxy-boosting and Ivory
Snow is a gentle cleanser.
In India, there is a difference between
an overtly fascist party (the BJP) and a party that slyly pits one community
against another (Congress), and sows the seeds of communalism that are
then so ably harvested by the BJP.
There are differences in the I.Q.s and
levels of ruthlessness between this year's U.S. presidential candidates.
The anti-war movement in the United States has done a phenomenal job
of exposing the lies and venality that led to the invasion of Iraq,
despite the propaganda and intimidation it faced.
This was a service not just to people
here, but to the whole world. But now, if the anti-war movement openly
campaigns for Kerry, the rest of the world will think that it approves
of his policies of "sensitive" imperialism. Is U.S. imperialism preferable
if it is supported by the United Nations and European countries? Is
it preferable if UN asks Indian and Pakistani soldiers to do the killing
and dying in Iraq instead of U.S. soldiers? Is the only change that
Iraqis can hope for that French, German, and Russian companies will
share in the spoils of the occupation of their country?
Is this actually better or worse for
those of us who live in subject nations? Is it better for the world
to have a smarter emperor in power or a stupider one? Is that our only
choice?
I'm sorry, I know that these are uncomfortable,
even brutal questions, but they must be asked.
The fact is that electoral democracy
has become a process of cynical manipulation. It offers us a very reduced
political space today. To believe that this space constitutes real choice
would be naïve.
The crisis in modern democracy is a profound
one.
On the global stage, beyond the jurisdiction
of sovereign governments, international instruments of trade and finance
oversee a complex system of multilateral laws and agreements that have
entrenched a system of appropriation that puts colonialism to shame.
This system allows the unrestricted entry and exit of massive amounts
of speculative capital - hot money - into and out of third world countries,
which then effectively dictates their economic policy. Using the threat
of capital flight as a lever, international capital insinuates itself
deeper and deeper into these economies. Giant transnational corporations
are taking control of their essential infrastructure and natural resources,
their minerals, their water, their electricity. The World Trade Organization,
the World Bank, the International Monetary Fund, and other financial
institutions like the Asian Development Bank, virtually write economic
policy and parliamentary legislation. With a deadly combination of arrogance
and ruthlessness, they take their sledgehammers to fragile, interdependent,
historically complex societies, and devastate them.
All this goes under the fluttering banner
of "reform."
As a consequence of this reform, in Africa,
Asia, and Latin America, thousands of small enterprises and industries
have closed down, millions of workers and farmers have lost their jobs
and land.
The Spectator newspaper in London assures
us that "[w]e live in the happiest, healthiest and most peaceful era
in human history." Billions wonder: who's "we"? Where does he live?
What's his Christian name?
The thing to understand is that modern
democracy is safely premised on an almost religious acceptance of the
nation state. But corporate globalization is not. Liquid capital is
not. So, even though capital needs the coercive powers of the nation
state to put down revolts in the servants' quarters, this set up ensures
that no individual nation can oppose corporate globalization on its
own.
Radical change cannot and will not be
negotiated by governments; it can only be enforced by people. By the
public. A public who can link hands across national borders.
So when we speak of "Public Power in
the Age of Empire," I hope it's not presumptuous to assume that the
only thing that is worth discussing seriously is the power of a dissenting
public. A public which disagrees with the very concept of empire. A
public which has set itself against incumbent power - international,
national, regional, or provincial governments and institutions that
support and service empire.
What are the avenues of protest available
to people who wish to resist empire? By resist I don't mean only to
express dissent, but to effectively force change. Empire has a range
of calling cards. It uses different weapons to break open different
markets. You know the check book and the cruise missile
For poor people in many countries, Empire
does not always appear in the form of cruise missiles and tanks, as
it has in Iraq or Afghanistan or Vietnam. It appears in their lives
in very local avatars - losing their jobs, being sent unpayable electricity
bills, having their water supply cut, being evicted from their homes
and uprooted from their land. All this overseen by the repressive machinery
of the state, the police, the army, the judiciary. It is a process of
relentless impoverishment with which the poor are historically familiar.
What Empire does is to further entrench and exacerbate already existing
inequalities.
Even until quite recently, it was sometimes
difficult for people to see themselves as victims of the conquests of
Empire. But now local struggles have begun to see their role with increasing
clarity. However grand it might sound, the fact is, they are confronting
Empire in their own, very different ways. Differently in Iraq, in South
Africa, in India, in Argentina, and differently, for that matter, on
the streets of Europe and the United States.
Mass resistance movements, individual
activists, journalists, artists, and film makers have come together
to strip Empire of its sheen. They have connected the dots, turned cash-flow
charts and boardroom speeches into real stories about real people and
real despair. They have shown how the neoliberal project has cost people
their homes, their land, their jobs, their liberty, their dignity. They
have made the intangible tangible. The once seemingly in-CORP-o-real
enemy is now CORP-o-real.
This is a huge victory. It was forged
by the coming together of disparate political groups, with a variety
of strategies. But they all recognized that the target of their anger,
their activism, and their doggedness is the same. This was the beginning
of real globalization. The globalization of dissent.
Broadly speaking, there are two kinds
of mass resistance movements in third world countries today. The landless
peoples' movement in Brazil, the anti-dam movement in India, the Zapatistas
in Mexico, the Anti-Privatization Forum in South Africa, and hundreds
of others, are fighting their own sovereign governments, which have
become agents of the neoliberal project. Most of these are radical struggles,
fighting to change the structure and chosen model of "development" of
their own societies.
Then there are those fighting formal
and brutal neocolonial occupations in contested territories whose boundaries
and fault lines were often arbitrarily drawn last century by the imperialist
powers. In Palestine, Tibet, Chechnya, Kashmir, and several states in
India's northeast provinces, people are waging struggles for self-determination.
Several of these struggles might have
been radical, even revolutionary when they began, but often the brutality
of the repression they face pushes them into conservative, even retrogressive
spaces in which they use the same violent strategies and the same language
of religious and cultural nationalism used by the states they seek to
replace.
Many of the foot soldiers in these struggles
will find, like those who fought apartheid in South Africa, that once
they overcome overt occupation, they will be left with another battle
on their hands - a battle against covert economic colonialism.
Meanwhile, as the rift between rich and
poor is being driven deeper and the battle to control the world's resources
intensifies. Economic colonialism through formal military aggression
is staging a comeback.
Iraq today is a tragic illustration of
this process. An illegal invasion. A brutal occupation in the name of
liberation. The rewriting of laws that allow the shameless appropriation
of the country's wealth and resources by corporations allied to the
occupation, and now the charade of a local "Iraqi government."
For these reasons, it is absurd to condemn
the resistance to the U.S. occupation in Iraq, as being masterminded
by terrorists or insurgents or supporters of Saddam Hussein. After all
if the United States were invaded and occupied, would everybody who
fought to liberate it be a terrorist or an insurgent or a Bushite?
The Iraqi resistance is fighting on the
frontlines of the battle against Empire. And therefore that battle is
our battle.
Like most resistance movements, it combines
a motley range of assorted factions. Former Baathists, liberals, Islamists,
fed-up collaborationists, communists, etc. Of course, it is riddled
with opportunism, local rivalry, demagoguery, and criminality. But if
we are only going to support pristine movements, then no resistance
will be worthy of our purity.
This is not to say that we shouldn't
ever criticize resistance movements. Many of them suffer from a lack
of democracy, from the iconization of their "leaders," a lack of transparency,
a lack of vision and direction. But most of all they suffer from vilification,
repression, and lack of resources.
Before we prescribe how a pristine Iraqi
resistance must conduct their secular, feminist, democratic, nonviolent
battle, we should shore up our end of the resistance by forcing the
U.S. and its allies government to withdraw from Iraq.
The first militant confrontation in the
United States between the global justice movement and the neoliberal
junta took place famously at the WTO conference in Seattle in December
1999. To many mass movements in developing countries that had long been
fighting lonely, isolated battles, Seattle was the first delightful
sign that their anger and their vision of another kind of world was
shared by people in the imperialist countries.
In January 2001, in Porto Alegre, Brazil,
20,000 activists, students, film makers - some of the best minds in
the world - came together to share their experiences and exchange ideas
about confronting Empire. That was the birth of the now historic World
Social Forum. It was the first, formal coming together of an exciting,
anarchic, unindoctrinated, energetic, new kind of "Public Power." The
rallying cry of the WSF is "Another World is Possible." It has become
a platform where hundreds of conversations, debates, and seminars have
helped to hone and refine a vision of what kind of world it should be.
By January 2004, when the fourth WSF
was held in Mumbai, India, it attracted 200,000 delegates. I have never
been part of a more electrifying gathering. It was a sign of the social
forum's success that the mainstream media in India ignored it completely.
But now, the WSF is threatened by its own success. The safe, open, festive
atmosphere of the forum has allowed politicians and nongovernmental
organizations that are imbricated in the political and economic systems
that the forum opposes to participate and make themselves heard.
Another danger is that the WSF, which
has played such a vital role in the movement for global justice, runs
the risk of becoming an end unto itself. Just organizing it every year
consumes the energies of some of the best activists. If conversations
about resistance replace real civil disobedience, then the WSF could
become an asset to those whom it was created to oppose. The forum must
be held and must grow, but we have to find ways to channel our conversations
there back into concrete action.
As resistance movements have begun to
reach out across national borders and pose a real threat, governments
have developed their own strategies of how to deal with them. They range
from cooptation to repression.
I'm going to speak about three of the
contemporary dangers that confront resistance movements: the difficult
meeting point between mass movements and the mass media, the hazards
of the NGO-ization of resistance, and the confrontation between resistance
movements and increasingly repressive states.
The place in which the mass media meets
mass movements is a complicated one.
Governments have learned that a crisis-driven
media cannot afford to hang about in the same place for too long. Like
business houses need a cash turnover, the media need crises turnover.
Whole countries become old news. They cease to exist, and the darkness
becomes deeper than before the light was briefly shone on them. We saw
it happen in Afghanistan when the Soviets withdrew. And now, after Operation
Enduring Freedom put the CIA's Hamid Karzai in place, Afghanistan has
been thrown to its warlords once more.
Another CIA operative, Iyad Allawi, has
been installed in Iraq, so perhaps it's time for the media to move on
from there, too.
While governments hone the art of waiting
out crisis, resistance movements are increasingly being ensnared in
a vortex of crisis production, seeking to find ways of manufacturing
them in easily consumable, spectator-friendly formats.
Every self-respecting peoples' movement,
every "issue" is expected to have its own hot air balloon in the sky
advertising its brand and purpose.
For this reason, starvation deaths are
more effective advertisements for impoverishment than millions of malnourished
people, who don't quite make the cut. Dams are not newsworthy until
the devastation they wreak makes good television. (And by then, it's
too late).
Standing in the rising water of a reservoir
for days on end, watching your home and belongings float away to protest
against a big dam used to be an effective strategy, but isn't any more.
The media is dead bored of that one. So the hundreds of thousands of
people being displaced by dams are expected to either conjure new tricks
or give up the struggle.
Colorful demonstrations and weekend marches
are vital but alone are not powerful enough to stop wars. Wars will
be stopped only when soldiers refuse to fight, when workers refuse to
load weapons onto ships and aircrafts, when people boycott the economic
outposts of Empire that are strung across the globe.
If we want to reclaim the space for civil
disobedience, we will have to liberate ourselves from the tyranny of
crisis reportage and its fear of the mundane. We have to use our experience,
our imagination, and our art to interrogate the instruments of that
state that ensure that "normality" remains what it is: cruel, unjust,
unacceptable. We have to expose the policies and processes that make
ordinary things - food, water, shelter and dignity - such a distant
dream for ordinary people. Real pre-emptive strike is to understand
that wars are the end result of flawed and unjust peace.
As far as mass resistance movements are
concerned, the fact is that no amount of media coverage can make up
for mass strength on the ground. There is no option, really, to old-fashioned,
back-breaking political mobilization.
Corporate globalization has increased
the distance between those who make decisions and those who have to
suffer the effects of those decisions. Forums like the WSF enable local
resistance movements to reduce that distance and to link up with their
counterparts in rich countries. That alliance is an important and formidable
one. For example, when India's first private dam, the Maheshwar Dam,
was being built, alliances between the Narmada Bachao Andolan (the NBA),
the German organization Urgewald, the Berne Declaration in Switzerland,
and the International Rivers Network in Berkeley worked together to
push a series of international banks and corporations out of the project.
This would not have been possible had there not been a rock solid resistance
movement on the ground. The voice of that local movement was amplified
by supporters on the global stage, embarrassing and forcing investors
to withdraw.
An infinite number of similar, alliances,
targeting specific projects and specific corporations would help to
make another world possible. We should begin with the corporations who
did business with Saddam Hussein and now profit from the devastation
and occupation of Iraq.
A second hazard facing mass movements
is the NGO-ization of resistance. It will be easy to twist what I'm
about to say into an indictment of all NGOs. That would be a falsehood.
In the murky waters of fake NGOs set up or to siphon off grant money
or as tax dodges (in states like Bihar, they are given as dowry), of
course there are NGOs doing valuable work. But it's important to consider
the NGO phenomenon in a broader political context.
In India, for instance, the funded NGO
boom began in the late 1980s and 1990s. It coincided with the opening
of India's markets to neoliberalism. At the time, the Indian state,
in keeping with the requirements of structural adjustment, was withdrawing
funding from rural development, agriculture, energy, transport, and
public health. As the state abdicated its traditional role, NGOs moved
in to work in these very areas. The difference, of course, is that the
funds available to them are a minuscule fraction of the actual cut in
public spending. Most large funded NGOs are financed and patronized
by aid and development agencies, which are in turn funded by Western
governments, the World Bank, the UN, and some multinational corporations.
Though they may not be the very same agencies, they are certainly part
of the same loose, political formation that oversees the neoliberal
project and demands the slash in government spending in the first place.
Why should these agencies fund NGOs?
Could it be just old-fashioned missionary zeal? Guilt? It's a little
more than that. NGOs give the impression that they are filling the vacuum
created by a retreating state. And they are, but in a materially inconsequential
way. Their real contribution is that they defuse political anger and
dole out as aid or benevolence what people ought to have by right.
They alter the public psyche. They turn
people into dependent victims and blunt the edges of political resistance.
NGOs form a sort of buffer between the sarkar and public. Between Empire
and its subjects. They have become the arbitrators, the interpreters,
the facilitators.
In the long run, NGOs are accountable
to their funders, not to the people they work among. They're what botanists
would call an indicator species. It's almost as though the greater the
devastation caused by neoliberalism, the greater the outbreak of NGOs.
Nothing illustrates this more poignantly than the phenomenon of the
U.S. preparing to invade a country and simultaneously readying NGOs
to go in and clean up the devastation.
In order make sure their funding is not
jeopardized and that the governments of the countries they work in will
allow them to function, NGOs have to present their work in a shallow
framework more or less shorn of a political or historical context. At
any rate, an inconvenient historical or political context.
Apolitical (and therefore, actually,
extremely political) distress reports from poor countries and war zones
eventually make the (dark) people of those (dark) countries seem like
pathological victims. Another malnourished Indian, another starving
Ethiopian, another Afghan refugee camp, another maimed Sudanese . .
. in need of the white man's help. They unwittingly reinforce racist
stereotypes and re-affirm the achievements, the comforts, and the compassion
(the tough love) of Western civilization. They're the secular missionaries
of the modern world.
Eventually - on a smaller scale but more
insidiously - the capital available to NGOs plays the same role in alternative
politics as the speculative capital that flows in and out of the economies
of poor countries. It begins to dictate the agenda. It turns confrontation
into negotiation. It depoliticizes resistance. It interferes with local
peoples' movements that have traditionally been self-reliant. NGOs have
funds that can employ local people who might otherwise be activists
in resistance movements, but now can feel they are doing some immediate,
creative good (and earning a living while they're at it). Real political
resistance offers no such short cuts.
The NGO-ization of politics threatens
to turn resistance into a well-mannered, reasonable, salaried, 9-to-5
job. With a few perks thrown in. Real resistance has real consequences.
And no salary.
This brings us to a third danger I want
to speak about tonight: the deadly nature of the actual confrontation
between resistance movements and increasingly repressive states. Between
public power and the agents of Empire.
Whenever civil resistance has shown the
slightest signs of evolving from symbolic action into anything remotely
threatening, the crack down is merciless. We've seen what happened in
the demonstrations in Seattle, in Miami, in Göthenberg, in Genoa.
In the United States, you have the USA
PATRIOT Act, which has become a blueprint for antiterrorism laws passed
by governments across the world. Freedoms are being curbed in the name
of protecting freedom. And once we surrender our freedoms, to win them
back will take a revolution.
Some governments have vast experience
in the business of curbing freedoms and still smelling sweet. The government
of India, an old hand at the game, lights the path.
Over the years the Indian government
has passed a plethora of laws that allow it to call almost anyone a
terrorist, an insurgent, a militant. We have the Armed Forces Special
Powers Act, the Public Security Act, the Special Areas Security Act,
the Gangster Act, the Terrorist and Disruptive Areas Act (which has
formally lapsed but under which people are still facing trial), and,
most recently, POTA (the Prevention of Terrorism Act), the broad-spectrum
antibiotic for the disease of dissent.
There are other steps that are being
taken, such as court judgments that in effect curtail free speech, the
right of government workers to go on strike, the right to life and livelihood.
Courts have begun to micro-manage our lives in India. And criticizing
the courts is a criminal offense.
But coming back to the counter-terrorism
initiatives, over the last decade, the number of people who have been
killed by the police and security forces runs into the tens of thousands.
In the state of Andhra Pradesh (the pin-up girl of corporate globalization
in India), an average of about 200 "extremists" are killed in what are
called "encounters" every year. The Mumbai police boast of how many
"gangsters" they have killed in "shoot outs." In Kashmir, in a situation
that almost amounts to war, an estimated 80,000 people have been killed
since 1989. Thousands have simply "disappeared." In the northeastern
provinces, the situation is similar.
In recent years, the Indian police have
opened fire on unarmed people, mostly Dalit and Adivasi. Their preferred
method is to kill them and then call them terrorists. India is not alone,
though. We have seen similar thing happen in countries such Bolivia,
Chile, and South Africa. In the era of neoliberalism, poverty is a crime
and protesting against it is more and more being defined as terrorism.
In India, POTA (the Prevention of Terrorism
Act) is often called the Production of Terrorism Act. It's a versatile,
hold-all law that could apply to anyone from an al-Qaeda operative to
a disgruntled bus conductor. As with all anti-terrorism laws, the genius
of POTA is that it can be whatever the government wants. After the 2002
state-assisted pogrom in Gujarat, in which an estimated 2,000 Muslims
were savagely killed by Hindu mobs and 150,000 driven from their homes,
287 people have been accused under POTA. Of these, 286 are Muslim and
one is a Sikh.
POTA allows confessions extracted in
police custody to be admitted as judicial evidence. In effect, torture
tends to replace investigation. The South Asia Human Rights Documentation
Center reports that India has the highest number of torture and custodial
deaths in the world. Government records show that there were 1,307 deaths
in judicial custody in 2002 alone.
A few months ago, I was a member of a
peoples' tribunal on POTA. Over a period of two days, we listened to
harrowing testimonies of what is happening in our wonderful democracy.
It's everything - from people being forced to drink urine, to being
stripped, humiliated, given electric shocks, burned with cigarette butts,
having iron rods put up their anuses, to being beaten and kicked to
death.
The new government has promised to repeal
POTA. I'd be surprised if that happens before similar legislation under
a different name is put in place. If its not POTA it'll be MOTA or something.
When every avenue of non-violent dissent
is closed down, and everyone who protests against the violation of their
human rights is called a terrorist, should we really be surprised if
vast parts of the country are overrun by those who believe in armed
struggle and are more or less beyond the control of the state: in Kashmir,
the north eastern provinces, large parts of Madhya Pradesh, Chattisgarh,
Jharkhand, and Andhra Pradesh. Ordinary people in these regions are
trapped between the violence of the militants and the state.
In Kashmir, the Indian army estimates
that 3,000 to 4,000 militants are operating at any given time. To control
them, the Indian government deploys about 500,000 soldiers. Clearly,
it isn't just the militants the army seeks to control, but a whole population
of humiliated, unhappy people who see the Indian army as an occupation
force.
The Armed Forces Special Powers Act allows
not just officers, but even junior commissioned officers and non-commissioned
officers of the army, to use force and even kill any person on suspicion
of disturbing public order. It was first imposed on a few districts
in the state of Manipur in 1958. Today, it applies to virtually all
of the north east and Kashmir. The documentation of instances of torture,
disappearances, custodial deaths, rape, and summary execution by security
forces is enough to turn your stomach.
In Andhra Pradesh, in India's heartland,
the militant Marxist-Leninist Peoples' War Group - which for years been
engaged in a violent armed struggle and has been the principal target
of many of the Andhra police's fake "encounters" - held its first public
meeting in years on July 28, 2004, in the town of Warangal.
It was attended by about hundreds of
thousands of people. Under POTA, all of them are considered terrorists.
Are they all going to be detained in some Indian equivalent of Guantánamo
Bay?
The whole of the north east and the Kashmir
valley is in ferment. What will the government do with these millions
of people?
There is no discussion taking place in
the world today that is more crucial than the debate about strategies
of resistance. And the choice of strategy is not entirely in the hands
of the public. It is also in the hands of sarkar.
After all, when the U.S. invades and
occupies Iraq in the way it has done, with such overwhelming military
force, can the resistance be expected to be a conventional military
one? (Of course, even if it were conventional, it would still be called
terrorist.) In a strange sense, the U.S. government's arsenal of weapons
and unrivalled air and fire power makes terrorism an all-but-inescapable
response. What people lack in wealth and power, they will make up with
stealth and strategy.
In this restive, despairing time, if
governments do not do all they can to honor nonviolent resistance, then
by default they privilege those who turn to violence. No government's
condemnation of terrorism is credible if it cannot show itself to be
open to change by to nonviolent dissent.
But instead nonviolent resistance movements
are being crushed. Any kind of mass political mobilization or organization
is being bought off, or broken, or simply ignored.
Meanwhile, governments and the corporate
media, and let's not forget the film industry, lavish their time, attention,
technology, research, and admiration on war and terrorism. Violence
has been deified.
The message this sends is disturbing
and dangerous: If you seek to air a public grievance, violence is more
effective than nonviolence.
As the rift between the rich and poor
grows, as the need to appropriate and control the world's resources
to feed the great capitalist machine becomes more urgent, the unrest
will only escalate.
For those of us who are on the wrong
side of Empire, the humiliation is becoming unbearable.
Each of the Iraqi children killed by
the United States was our child. Each of the prisoners tortured in Abu
Ghraib was our comrade. Each of their screams was ours. When they were
humiliated, we were humiliated. The U.S. soldiers fighting in Iraq -
mostly volunteers in a poverty draft from small towns and poor urban
neighborhoods - are victims just as much as the Iraqis of the same horrendous
process, which asks them to die for a victory that will never be theirs.
The mandarins of the corporate world,
the CEOs, the bankers, the politicians, the judges and generals look
down on us from on high and shake their heads sternly. "There's no Alternative,"
they say. And let slip the dogs of war.
Then, from the ruins of Afghanistan,
from the rubble of Iraq and Chechnya, from the streets of occupied Palestine
and the mountains of Kashmir, from the hills and plains of Colombia
and the forests of Andhra Pradesh and Assam comes the chilling reply:
"There's no alternative but terrorism." Terrorism. Armed struggle. Insurgency.
Call it what you want.
Terrorism is vicious, ugly, and dehumanizing
for its perpetrators, as well as its victims. But so is war. You could
say that terrorism is the privatization of war. Terrorists are the free
marketers of war. They are people who don't believe that the state has
a monopoly on the legitimate use of violence.
Human society is journeying to a terrible
place.
Of course, there is an alternative to
terrorism. It's called justice.
It's time to recognize that no amount
of nuclear weapons or full-spectrum dominance or daisy cutters or spurious
governing councils and loya jirgas can buy peace at the cost of justice.
The urge for hegemony and preponderance
by some will be matched with greater intensity by the longing for dignity
and justice by others.
Exactly what form that battle takes,
whether its beautiful or bloodthirsty, depends on us.
Opinión
¿Con
qué detergente lavas? El poder público en la era del imperio
Arundhati
Roy
Discurso completo pronunciado
por en San Francisco, California
Me han pedido que hable acerca del "poder
público en la era del imperio". No acostumbro hacer lo que se
me dice, pero por una feliz casualidad eso es precisamente de lo que
quiero hablar hoy.
Cuando vemos cómo se destripa
y se desangra el lenguaje, ¿qué entendemos por "poder público"?
Cuando la libertad significa ocupación; la democracia, capitalismo
neoliberal; la reforma, represión; y palabras como "emancipación"
y "misión de paz" le hielan a una la sangre, entonces una expresión
como "poder público" puede significar lo que quiera cada uno.
Por ejemplo, una máquina para desarrollar los bíceps o
un producto de limpieza. Así que voy a tener que definir el "poder
público" por el camino, digamos que arrimando el ascua a mi sardina.
En la India, la palabra "public" está
incorporada a la lengua hindú. Significa pueblo. En hindú
tenemos "sarkar" y "public", el gobierno y el pueblo. Este uso implica
la suposición de que el gobierno es algo aparte de "el pueblo".
La distinción tiene mucho que ver con el hecho de que la lucha
por la libertad en la India, aunque magnífica, no fue ni mucho
menos revolucionaria. La élite india se calzó con facilidad
y elegancia los zapatos que dejaron los imperialistas británicos.
Una sociedad extremadamente empobrecida y esencialmente feudal se convirtió
en una nación estado independiente y moderna. Hoy, cuando han
pasado cincuenta y siete años exactos, los verdaderos vencidos
todavía ven al gobierno como "mai-baap", el padre y proveedor.
El sector ligeramente más radical, los que todavía tienen
fuego en las entrañas, lo ven como "chor", el ladrón,
el que arrebata todas las cosas.
Sea como sea, para la mayoría
de los indios, "sarkar" es algo muy diferente de "public". Sin embargo,
a medida que se suben los peldaños de la escala social, la distinción
entre "sarkar" y "public" se diluye. A la élite india, como a
todas las élites del mundo, le cuesta separarse del estado. Ve
lo que ve el estado, piensa como el estado, habla como el estado.
En contraste, en Estados Unidos la distinción
entre "sarkar" y "public" se ha difuminado a niveles mucho más
profundos dentro de la sociedad. Esto podría ser indicativo de
una democracia robusta, pero desgraciadamente el asunto es un poco más
complicado y menos lindo. Entre otras cosas está relacionado
con la intrincada trama de paranoia urdida por el "sarkar" estadounidense
y difundida por las corporaciones mediáticas y por Hollywood.
Los estadounidenses normales se han visto manipulados hasta imaginar
que son un pueblo en estado de sitio cuyo único refugio y protección
provienen de su gobierno. Si no son los comunistas, es Al Qaeda. Si
no es Cuba, es Nicaragua. El resultado es que la nación más
poderosa del mundo, con su inigualable arsenal, su historial de combate
y financiación de innumerables guerras, y la única nación
que ha hecho uso de la bomba atómica, está habitada por
una ciudadanía aterrorizada que se asusta hasta de su sombra.
Un pueblo atado al estado, no por las prestaciones sociales, la sanidad
pública o las garantías laborales, sino por el miedo.
Este miedo de fabricación sintética
se utiliza para conseguir el apoyo del pueblo a más actos de
agresión, y así se va construyendo una espiral de histeria
autoreplicante, ya calibrada oficialmente por el gobierno estadounidense
en su programa Alertas Terroristas en Rutilante Tecnicolor: fucsia,
azul turquesa, rosa salmón.
A los que la miramos desde afuera, esta
fusión de "sarkar" y "public" en EEUU a veces nos hace difícil
distinguir entre las acciones del gobierno de EEUU y las del pueblo
estadounidense. Esta confusión es lo que alimenta al antiamericanismo
en el mundo. Entonces el gobierno estadounidense se aferra al antiamericanismo
y lo amplifica por medio de sus leales medios de comunicación.
Ya conocen la rutina: "¿Por qué nos odian? Odian nuestras
libertades"... etc, etc. De esta forma se refuerza la sensación
de aislamiento de la población de EEUU y hace más estrecho
todavía el abrazo entre "sarkar" y "public". Como Caperucita
Roja buscando el calorcito de la cama del lobo.
El uso de la amenaza de un enemigo externo
para unificar a la población en favor de uno es un burro viejo
al que se suben los políticos desde hace siglos para entrar por
las puertas del poder. Pero a lo mejor la gente normal está harta
de ese pobre burro y busca otra cosa. Una antigua canción de
película hindú dice: "yeh public hai, yeh sab jaanti hai"
(el pueblo sí lo sabe todo). ¿No sería estupendo
si la canción tuviera razón y los políticos no?
Antes de la invasión ilegal de
Irak por Washington, una encuesta de Gallup International indicaba que
en ningún país europeo el apoyo a una guerra unilateral
superaba el 11%. El 15 de febrero de 2003, pocas semanas antes de la
invasión, más de diez millones de personas se manifestaron
en contra de la guerra en los distintos continentes, América
del Norte inclusive. Y aún así los gobiernos de muchos
países supuestamente democráticos se unieron a la guerra.
La cuestión es si la "democracia"
sigue siendo democrática.
¿Los gobiernos democráticos
tienen que rendir cuentas a las personas que los eligieron? Y, crucialmente,
¿el "public" de los países democráticos es responsable
de las acciones de su "sarkar"?
Si
nos ponemos a pensar, la lógica en la que se basa la guerra contra
el terrorismo y la lógica en que se basa el terrorismo es exactamente
la misma. Ambas obligan a los ciudadanos a pagar por las acciones de
sus gobiernos. Al Qaeda obligó al pueblo de los EEUU a pagar
con sus vidas las acciones de su gobierno en Palestina, Arabia Saudí,
Irak y Afganistán. El gobierno estadounidense ha obligado al
pueblo afgano a pagar con miles de vidas las acciones de los talibanes,
y el pueblo iraquí está pagando con cientos de miles más
las acciones de Sadam Husein.
La diferencia esencial es que en realidad
nadie había votado a Al Qaeda, a los talibanes o a Sadam Husein.
Pero el presidente de los Estados Unidos sí que había
ganado elecciones (bueno, por decirlo de alguna manera).
Los jefes de gobierno de Italia, España
y Reino Unido habían ganado elecciones. ¿No podría
decirse, entonces, que los ciudadanos de estos países son más
responsables de las acciones de sus gobiernos que lo son los iraquíes
de las acciones de Sadam Husein, o los afganos de las de los talibanes?
¿Cuál de sus respectivos
dioses decide si ésta o la otra es una "guerra justa"? George
Bush padre dijo una vez: "Yo nunca pediré disculpas en nombre
de EEUU. No me importa lo que haya pasado". Cuando el presidente del
país más poderoso del mundo no necesita que le importe
lo que haya ocurrido, por lo menos podemos estar seguros de que hemos
entrado en la era del imperio.
Así que, ¿qué significado
tiene el poder público en la era del imperio? ¿Tiene algún
significado? ¿Existe en realidad?
En estos tiempos presuntamente democráticos
el pensamiento político convencional afirma que el poder público
se ejerce en las urnas. Docenas de países de todo el mundo irán
a las urnas este año, y la mayoría (no todos) tendrán
los gobiernos a los que hayan votado. Pero ¿conseguirán
tener los gobiernos a los que aspiran?
En la India este año votamos la
derrota de los nacionalistas hindúes. Sin embargo, mientras estábamos
celebrándolo, sabíamos ya que en lo que se refiere al
armamento nuclear, el neoliberalismo, la privatización, la censura,
los grandes pantanos, es decir, en todas las cuestiones importantes,
aparte del nacionalismo hindú descarado, el Partido del Congreso
y el BJP no presentan grandes diferencias ideológicas. Sabemos
también que fueron los cincuenta años de existencia del
Partido del Congreso los que abrieron el camino, cultural y políticamente,
a la extrema derecha. También fue el Partido del Congreso el
que abrió los mercados de la India a la globalización
corporativa.
En su campaña electoral, el Partido
del Congreso aseguraba que estaba dispuesto a revisar parte de su política
económica. Millones de personas, de las más pobres de
la India, salieron a votar en masa en estas elecciones. El espectáculo
de la gran democracia india se televisó en directo: los agricultores
pobres, los ancianos y enfermos, las mujeres cubiertas de velos con
sus hermosas joyas de plata, acudiendo a los colegios electorales sobre
elefantes, camellos y carros de bueyes en un espectáculo encantadoramente
anacrónico. En contra de las predicciones de todos los expertos
y encuestadores de la India, el Congreso obtuvo más votos que
ningún otro partido. Los partidos comunistas consiguieron el
mayor número de votos de su historia. Los pobres de la India
votaron claramente en contra de las "reformas" económicas del
neoliberalismo y el fascismo creciente. En cuanto se contaron los votos,
los grandes medios de comunicación los despacharon como si fueran
figurantes baratos en un rodaje. Los canales de televisión desplegaban
pantallas partidas: en la mitad de la pantalla aparecía el caos
que se había formado a la puerta de la residencia de Sonia Gandhi,
líder del Partido del Congreso, mientras se improvisaba un gobierno
de coalición.
La otra mitad mostraba, a las puertas
del Mumbai Stock Exchange, a los corredores de bolsa frenéticos
por la preocupación, por si al Partido del Congreso se le ocurría
cumplir sus promesas y llevar a cabo las propuestas electorales que
lo habían llevado al poder. Vimos el índice bursátil
Sensex subir, bajar y dar tumbos. Los medios de comunicación,
cuyos propios valores estaban cayendo en picado, daban la noticia del
colapso bursátil como si Pakistán acabara de lanzar misiles
balísticos intercontinentales sobre Nueva Delhi.
Antes
incluso de la toma de posesión del nuevo gobierno, hubo políticos
de primera fila del Partido del Congreso que hicieron declaraciones
públicas en las que aseguraban a los inversores y a los medios
que la privatización de los servicios públicos continuaría.
Entretanto, el BJP, al pasar a la oposición, ha comenzado a poner
objeciones, de forma tan cínica como cómica, a la inversión
extranjera directa y a una mayor apertura de los mercados indios.
Esta es la falsa dialéctica que
está adoptando la democracia electoral.
En cuanto a los indios pobres, una vez
que han suministrado los votos, carretera y manta, que la política
se decidirá sin contar con ellos.
¿Y en las elecciones de EEUU? ¿Tienen
opción los votantes?
Es cierto que si John Kerry llega a ser
presidente, cambiarán algunos de los magnates del petróleo
y fundamentalistas cristianos de la Casa Blanca. Serán pocos
los que sientan perder de vista a truhanes descarados como Dick Cheney,
Donald Rumsfeld o John Ashcroft. Lo que sí es preocupante es
que la nueva administración conservará su política.
Que tendremos Bushismo sin Bush.
Los que están realmente en el
poder - los banqueros, directivos etc - no son vulnerables al voto (y
de todas formas financian a ambos lados).
Por desgracia, la importancia de las
elecciones estadounidenses ha degenerado en una contienda entre personalidades.
Una trifulca para dirimir quién sería el mejor capataz
del imperio. John Kerry cree en la idea del imperio con el mismo fervor
que George Bush.
El sistema político de EEUU está
cuidadosamente confeccionado para impedir que cualquiera que cuestione
la bondad natural de la estructura de poder militar-industrial-corporativa
pueda entrar por las puertas del poder.
En este contexto, no sorprende a nadie
que en estas elecciones los dos contendientes sean licenciados de la
Universidad de Yale, ambos miembros de la sociedad secreta "Skull and
Bones" (La calavera), ambos millonarios que juegan a los soldaditos,
ambos pregonando la guerra y discutiendo de manera casi pueril cuál
de los dos sería el caudillo más eficiente en la guerra
contra el terror.
Al igual que su predecesor el presidente
Clinton, Kerry continuará la expansión del poder económico
y militar de EEUU en el mundo. Dice que hubiera votado a favor de la
guerra de Bush en Irak aún sabiendo que Irak no tenía
armas de destrucción masiva. Promete asignar más tropas
a Irak. Recientemente ha dicho que apoya al cien por cien la política
de Bush en relación con Israel y Ariel Sharon. Dice que mantendrá
el 98% de los recortes fiscales de Bush.
Así que, por debajo del histérico
intercambio de insultos, el consenso es casi absoluto. Parece que, incluso
si el electorado americano vota a Kerry, de todas formas seguirá
estando Bush: El presidente John Kerbush o el presidente George Berry.
La posibilidad de elegir no es real,
sino aparente. Es como elegir una marca de detergente. Compres Tide
o compres Ivory Snow, los dos son de Procter and Gamble.
Esto no significa que la posición
de cada uno no tenga
sus matices, que el Congreso y el BJP, los neolaboristas y los conservadores,
los demócratas y los republicanos sean lo mismo. Claro que no
lo son. Tampoco lo son Tide y Ivory Snow: Tide tiene oxígeno
activo y Ivory Snow es un jabón suave.
En la India, hay diferencias entre un
partido abiertamente fascista (el BJP) y otro que taimadamente enfrenta
a una comunidad con otra (Congreso), sembrando las semillas del comunalismo
que luego cosecha hábilmente el BJP.
Existen diferencias en los niveles de
inteligencia e insensibilidad de los actuales candidatos a presidente
de los EEUU. El movimiento contra la guerra en EEUU ha realizado una
labor extraordinaria al poner de manifiesto las mentiras y la venalidad
que dieron lugar a la invasión de Irak, a pesar de la propaganda
e intimidación a las que se enfrentaban.
Esta acción prestó un gran
servicio no sólo al pueblo estadounidense, sino al mundo entero.
Pero ahora, si el movimiento contra la guerra se une abiertamente a
la campaña de Kerry, el resto del mundo pensará que está
de acuerdo con su política de imperialismo "sensible". ¿Es
preferible el imperialismo de EEUU si lo apoyan la ONU y los países
europeos? ¿Es preferible que la ONU pida soldados a India y Pakistán
para que maten y mueran en Irak en lugar de los soldados estadounidenses?
¿Es verdad que el único cambio que pueden esperar los iraquíes
es que las compañias francesas, alemanas y rusas participen en
el saqueo de su país?
¿Es esto mejor o peor para los que
vivimos en naciones vasallas? ¿es mejor para el mundo tener un
emperador más listo en el poder, o uno más tonto? ¿Es
ésa nuestra única alternativa?
Perdónenme, ya sé que estas
son preguntas incómodas, incluso brutales, pero es necesario
plantearlas.
Lo cierto es que la democracia electoral
se ha convertido en un proceso de manipulación cínica.
Ofrece un espacio político muy reducido, y sería ingenuo
creer que en este espacio hay opciones reales.
La crisis de la democracia moderna es
profunda.
En el escenario global, más allá
de la jurisdicción de los gobiernos soberanos, los instrumentos
internacionales de comercio y finanzas supervisan un complejo sistema
de leyes multilaterales y acuerdos que han consolidado un sistema de
apropiación que daría vergüenza a los colonialistas.
Este sistema permite la entrada y salida sin restricciones de cantidades
ingentes de capital especulativo - dinero caliente - de los países
del tercer mundo, que acaba prácticamente por dictar su política
económica. Utilizando la amenaza de la fuga de capital como palanca,
el capital internacional penetra cada vez más en todos los niveles
de estas economías. Las gigantes corporaciones transnacionales
están tomando las riendas de sus infraestructuras esenciales
y sus recursos naturales, sus minerales, su agua, su electricidad. La
Organización Mundial del Comercio, el Banco Mundial, el Fondo
Monetario Internacional y otras instituciones financieras como el Banco
Asiático de Desarrollo, prácticamente escriben la política
económica y la legislación parlamentaria. Arrogantes y
despiadados, blanden sus mazas contra sociedades históricamente
complejas, frágiles, interdependientes, y las asolan.
Todo esto, por cierto, bajo el alegre
ondear de la pancarta de la "reforma".
Como consecuencia de esta reforma, en
Africa, Asia y América latina, miles de negocios e industrias
de pequeña envergadura han quebrado. Millones de trabajadores
y agricultores han perdido sus empleos y sus tierras.
La revista "The Spectator", de Londres,
nos asegura que "vivimos en la era más feliz, sana y pacífica
de la historia de la humanidad". Miles de millones de personas preguntarían
¿de qué "nosotros" habla? ¿Dónde viven? ¿Cómo
se llaman?
Lo que hay que comprender es que la democracia
moderna está cimentada por una aceptación casi religiosa
de la nación-estado. Pero la globalización de las corporaciones
no lo está. El capital líquido no lo está. Por
tanto, aunque el capital requiera el poder de coerción de la
nación estado para acallar las revueltas en las habitaciones
de los sirvientes, el sistema garantiza que ninguna nación pueda
oponerse a la globalización por su cuenta y riesgo.
Un cambio radical no puede ser ni será
nunca algo negociado por los gobiernos: sólo lo puede ejecutar
el pueblo, el público. Un público capaz de darse la mano
a través de las fronteras.
Así, cuando hablamos del "poder
público en la era del imperio", espero que no parezca presuntuoso
asumir que lo único que vale la pena debatir en serio es el poder
de un público que disiente, un público que está
en desacuerdo con el propio concepto de imperio, un público que
se enfrenta con los que ocupan el poder: los gobiernos e instituciones
internacionales, nacionales, regionales o provinciales que apoyan y
prestan servicios al imperio.
¿Cuáles son las vías
de protesta que pueden emplear las personas que desean resistir al imperio?
Cuando digo "resistir" no me refiero sólo a expresar nuestro
desacuerdo, sino a forzar un cambio real. El imperio tiene una amplia
gama de tarjetas de visita. Utiliza distintas armas para descerrajar
los distintos mercados, ya saben, como el talonario o el misil crucero.
Para los pobres de muchos países,
el imperio no aparece siempre en forma de misiles o tanques, como en
Irak, Afganistán o Vietnam. Aparece en sus vidas en forma de
avatares muy locales: la pérdida del empleo, recibos de la luz
impagables, cortes en el suministro de agua, desahucios de viviendas,
desalojos de tierras... todo esto supervisado por la maquinaria represora
del estado, la policía, el ejército, el poder judicial.
Se trata de un proceso de empobrecimiento implacable que los pobres
conocen muy bien a lo largo de su historia. Lo que hace el imperio es
reforzar y exacerbar las desigualdades existentes.
Hasta hace bastante poco a la gente le
costaba a veces verse a sí mismos como víctimas de las
conquistas del imperio. Pero actualmente los conflictos locales están
viendo cada vez más claro su propio papel. Por muy grandilocuente
que suene, lo cierto es que se están enfrentando al imperio,
cada uno a su manera, que es muy diferente en Irak, Sudáfrica,
India, Argentina y, cómo no, en las calles de Europa y de Estados
Unidos.
Los movimientos de resistencia de masas,
los activistas, periodistas, artistas y cineastas se han unido para
quitarle brillo al imperio. Han atado cabos, han convertido los flujogramas
y los discursos de los consejos de administración en historias
reales sobre personas reales y desesperanzas reales. Han demostrado
cómo el proyecto neoliberal lo ha pagado la gente con sus viviendas,
sus tierras, sus empleos, su libertad, su dignidad. Han hecho tangible
lo intangible. El que antaño parecía un enemigo incorpóreo
se ha hecho carne.
Esto es una gran victoria, forjada gracias
a la unión de grupos políticos diferentes, con estrategias
muy variadas. Pero lo que todos comprendieron es que el objeto de su
rabia, de su activismo y su empeño es el mismo. Este fue el principio
de la verdadera globalización: la globalización de la
inconformidad.
En general, hoy en día hay dos
tipos de movimientos de resistencia de masas en los países del
tercer mundo. El movimiento de los sin tierra de Brasil, el movimiento
anti-pantanos en la India, los zapatistas de Méjico, el foro
anti-privatización de Sudáfrica y varios cientos más
están luchando contra sus propios gobiernos soberanos, que han
pasado a ser agentes del proyecto neoliberal. La mayor parte de éstos
son conflictos radicales, en los que se lucha por cambiar la estructura
y el modelo elegido para el "desarrollo" de sus sociedades.
Los otros son los que luchan contra ocupaciones
neocoloniales tan oficiales como brutales en territorios disputados,
cuyas fronteras dibujaron las potencias imperialistas en el siglo pasado.
Los pueblos de Palestina, Tíbet, Tchetchênia, Caxemira
y varios estados del nordeste de la India mantienen una lucha por la
autodeterminación.
Algunas de estas luchas podrían
haber sido radicales, e incluso revolucionarias, en sus comienzos, pero
a menudo la brutalidad de la represión con que se encuentran
las empuja hacia áreas conservadoras e incluso retrógradas,
en las que las estrategias de violencia y el lenguaje de nacionalismo
religioso y cultural que se emplean son idénticos a los de los
estados que pretenden sustituir.
Muchos de los soldados rasos de estas
contiendas se encontrarán, al igual que los que lucharon contra
el apartheid en Sudáfrica, que una vez venzan a la ocupación
van a tener otra guerra en las manos, una guerra contra el colonialismo
económico encubierto.
Entretanto, a medida que el abismo entre
ricos y pobres se profundiza y la batalla por el control de los recursos
terrestres se intensifica, el colonialismo económico por medio
de la agresión militar cabalga de nuevo.
El Irak de hoy proporciona una ilustración
trágica de este proceso. Una invasión ilegal; una ocupación
brutal en nombre de la liberación. La reelaboración de
leyes que permiten la apropiación desvergonzada de la riqueza
y los recursos del país por las corporaciones aliadas a la ocupación,
y ahora la farsa de un "gobierno iraquí" local.
Por estas razones, es absurdo condenar
la resistencia a la ocupación de Irak por EEUU basándose
en que está organizada por terroristas, insurgentes o partidarios
de Sadam Husein. Después de todo, si alguien invadiera y ocupara
Estados Unidos, ¿serían todos los que lucharan por su liberación
terroristas, insurgentes o bushistas?
La resistencia iraquí lucha en
los frentes de la batalla contra el imperio, y en ese caso su lucha
es la nuestra.
Como la mayoría de los movimientos
de resistencia, está formado por una serie de facciones de distinto
pelaje. Antiguos baathistas, liberales, islamistas, colaboracionistas
descontentos, comunistas etc. Como es de esperar, está plagado
de oportunismo, rivalidades locales, demagogia y delincuencia. Pero
si sólo vamos a apoyar a los movimientos inmaculados, entonces
ninguna resistencia merecerá nuestra pureza.
Esto no significa que no debamos criticar
nunca a los movimientos de resistencia. Muchos de ellos adolecen de
falta de democracia, de idolatría de sus líderes, de falta
de transparencia, de falta de visión y dirección. Pero
sobre todo sufren por la demonización, la represión y
la falta de recursos.
Antes de decidir cómo debería
dirigir una resistencia iraquí inmaculada su batalla laica, feminista,
democrática y no violenta, deberíamos apuntalar la resistencia
por nuestro lado obligando a EEUU y sus aliados a retirarse de Irak.
El primer enfrentamiento militar que
se dio en EEUU entre el movimiento para la justicia global y la junta
neoliberal tuvo lugar en la famosa conferencia de la OMC en Seattle
en diciembre de 1999. Para muchos movimientos de masas en países
en vías de desarrollo que llevaban mucho tiempo librando batallas
aisladas y solitarias, Seattle fue la primera señal de alivio,
que demostraba que su rabia y su visión de un mundo distinto
también existían entre la gente de los países imperialistas.
En enero de 2001, en Porto Alegre, Brasil,
se reunieron 20.000 activistas, estudiantes, cineastas - algunas de
las mejores mentes del mundo - para poner en común sus experiencias
e intercambiar ideas sobre cómo hacer frente al imperio. Así
nació el ya histórico Foro Social Mundial. Esta era la
primera reunión oficial de un tipo distinto de "poder público":
estimulante, anárquico, nada indoctrinado, activo. El lema del
FSM es "Otro mundo es posible". El foro se ha convertido en una plataforma
en la que cientos de conversaciones, debates y seminarios han ayudado
a templar y refinar una visión de cómo sería ese
mundo.
En enero de 2004, se celebró el
cuarto FSM en Mumbai, India, al que acudieron 200.000 delegados. Yo
nunca había participado en una reunión tan vibrante. Una
de las pruebas del éxito del foro social es que los medios de
comunicación principales de la India lo ignoraron completamente.
Pero ahora el FSM está amenazado por su propio éxito.
El ambiente seguro, abierto y lúdico del foro ha permitido participar
y ha dado voz a políticos y organizaciones no gubernamentales
implicados en los sistemas políticos y económicos a los
que se opone el foro.
Otro peligro es que el FSM, cuyo papel
ha sido tan vital en el movimiento por la justicia global, corre el
riesgo de convertirse en un fin en sí mismo. Solamente organizarlo
todos los años consume las energías de algunos de los
mejores activistas que tenemos. Si las conversaciones en torno a la
resistencia sustituyen a la auténtica desobediencia civil, el
FSM podría tornarse en algo valioso para aquéllos contra
los que se creó. El foro se debe celebrar y tiene que crecer,
pero tenemos que encontrar formas de canalizar esas conversaciones hacia
acciones concretas.
A medida que los movimientos de resistencia
se han estirado cruzando fronteras y han comenzado a suponer una amenaza
real, los gobiernos han desarrollado sus propias estrategias para derrotarlos,
sea por medio de la asimilación o la represión.
Voy a hablar de tres de los peligros
actuales que afectan a los movimientos de resistencia: el difícil
punto de encuentro entre los movimientos de masas y los medios de comunicación
de masas; los riesgos de la ONG-ización de la resistencia; y
el enfrentamiento entre los movimientos de resistencia y los estados
cada vez más represivos.
El lugar en que los medios masivos se
encuentran con los movimientos de masas es bastante complicado.
Los gobiernos se han dado cuenta de que
unos medios que funcionan de crisis en crisis no se pueden permitir
quedarse mucho tiempo en el mismo sitio. Al igual que los negocios requieren
liquidez de dinero, los medios requieren liquidez de crisis. Países
enteros se convierten en noticias pasadas: dejan de existir y la oscuridad
se vuelve más profunda que antes de que los focos se detuvieran
brevemente sobre ellos. Lo vimos en Afganistán cuando se retiraron
los soviéticos, y ahora, una vez que la operación Libertad
Duradera puso a Hamid Karzai, de la CIA, en el poder, Afganistán
ha quedado una vez más en manos de sus guerreros feudales.
En Irak se ha instalado otro agente de
la CIA, Iyad Allawi, así que quizá haya llegado la hora
de que los medios se vayan también de allí.
Mientras los gobiernos refinan el arte
de esperar a que pase cada crisis, los movimientos de resistencia se
están enmarañando cada vez más en una espiral de
producción de crisis, buscando las formas de fabricarlas en formatos
de fácil consumo a medida de los espectadores.
Todo movimiento popular que se respete,
todo "tema", ha de tener su propio globo publicitario en el aire anunciando
su marca y su propósito.
Por esta razón, los muertos de
hambre son más eficaces a la hora de dar publicidad a la pobreza
que millones de personas desnutridas, que no llegan a dar la talla.
Los pantanos no dan mucho juego como noticia hasta que la devastación
que producen queda bien en televisión - cuando ya es demasiado
tarde.
Pasarse días de pie en el agua
mientras se va llenando el pantano, viendo cómo tu casa y tus
posesiones se van flotando, solía ser una estrategia eficaz,
pero ya no lo es. Ya aburre mortalmente a los medios. Así que,
para capturar su atención, los cientos de miles de personas desplazadas
por las presas tendrán que buscarse nuevos trucos o abandonar
la lucha.
Las concentraciones coloridas y las manifestaciones
de fin de semana son esenciales, pero por sí solas no son lo
bastante potentes para parar las guerras. Las guerras sólo terminarán
cuando los soldados se nieguen a luchar, cuando los trabajadores se
nieguen a cargar armas en los buques y aviones, cuando el pueblo boicotee
los centros económicos del imperio diseminados por todo el globo.
Si queremos reclamar el espacio de la
desobediencia civil, tenemos que liberarnos de la tiranía del
periodismo de crisis con su miedo a lo mundano. Tenemos que usar nuestra
experiencia, nuestra imaginación y nuestro arte para interrogar
a los instrumentos del estado que garantizan que la "normalidad" sea
lo que es: cruel, injusta, inaceptable. Tenemos que sacar a la luz las
políticas y procesos que hacen que las cosas de cada día
- la comida, el agua, la vivienda y la dignidad - sean un sueño
distante para la gente normal. El verdadero ataque preventivo es comprender
que las guerras son el resultado final de una paz imperfecta e injusta.
En lo que se refiere a los movimientos
de resistencia, lo cierto es que no hay cobertura de los medios comparable
a la fuerza de las masas en acción sobre el terreno. No hay otra
opción, de veras, que la agotadora movilización política.
La globalización de las corporaciones
ha aumentado la distancia entre los que toman las decisiones y los que
sufren las secuelas de esas decisiones. Los foros como el FSM permiten
a los movimientos locales de resistencia reducir esa distancia y tomar
contacto con los movimientos correspondientes en los países ricos.
Esta es una alianza importante y formidable. Por ejemplo, cuando el
primer pantano privado de la India, el Maheshwar Dam, estaba en construcción,
las alianzas creadas entre la Narmada Bachao Andolaan (NBA), la organización
alemana Urgewald, la Declaración de Berna en Suiza y la Red Internacional
sobre Ríos de Berkeley en EEUU, se unieron para conseguir que
una serie de bancos internacionales y corporaciones abandonaran el proyecto.
Esto no hubiera sido posible si no hubiera existido sobre el terreno
un movimiento de resistencia sólido como una piedra. La voz de
ese movimiento local se vio amplificada por los que los apoyaban a nivel
global, causando la deserción de los inversores, avergonzados.
Si se formaran infinitas alianzas similares,
dirigidas a proyectos específicos y a corporaciones específicas,
se podría crear un mundo diferente. Deberíamos empezar
por las corporaciones que hacían negocios con Sadam Husein y
ahora se aprovechan de la devastación y ocupación de Irak.
Otro peligro que amenaza a los movimientos
de masas es la ONG-ización de la resistencia. Será fácil
distorsionar lo que voy a decir para que parezca una acusación
a todas las ONG. Eso sería falso. En las sucias aguas de las
ONG de pega montadas para chupar subvenciones o eludir impuestos (en
estados como Bihar se regalan como dote) también existen ONG
que realizan labores valiosas. Pero es importante observar el fenómeno
de las ONG en un contexto político más amplio.
En la India, por ejemplo, el apogeo de
las ONG subvencionadas comenzó a finales de los años 80
y en los 90, coincidiendo con la apertura de los mercados indios al
neoliberalismo. En aquel momento, el estado indio, cumpliendo los requisitos
del ajuste estructural correspondiente, estaba retirando su apoyo financiero
al desarrollo rural, la agricultura, la energía, el transporte
y la sanidad pública. A medida que el estado abdicaba su función
tradicional las ONG se pusieron a trabajar en estas áreas específicas.
La diferencia, evidentemente, es que los fondos que tienen a su disposición
son una fracción minúscula del recorte que se realizó
en el gasto público. La mayoría de las grandes ONG subvencionadas
están financiadas y patrocinadas por las agencias de ayuda y
desarrollo, que a su vez dependen para su financiación de los
gobiernos occidentales, el Banco Mundial, la ONU y algunas corporaciones
multinacionales. Aunque no sean exactamente las mismas agencias, siguen
siendo parte del mismo mundillo político que supervisa el proyecto
neoliberal y que exige el recorte drástico del gasto público.
¿Cuál es la razón
por la que estas agencias financian a las ONG? ¿Podría ser
a causa del anticuado afán misionero? ¿Será el sentido
de culpabilidad? En realidad, es algo más que eso. Las ONG dan
la impresión de estar llenando el vacío creado por el
estado en retirada. Sí que lo hacen, pero de forma materialmente
inconsecuente. Su contribución real es que por medio de ellas
se descarga la rabia política y que reparten como asistencia
o caridad lo que corresponde al pueblo por derecho.
Las ONG alteran la psique pública.
Convierten a las personas en víctimas desvalidas y mellan las
puntas de la resistencia política. Las ONG forman una especie
de parachoques entre el "sarkar" y el "public". Entre el imperio y sus
súbditos. Se han convertido en árbitros, intérpretes,
mediadores.
En última instancia, las ONG son
responsables de sus acciones ante los que las financian, no ante las
personas con las que trabajan. Son lo que llamarían los botánicos
especies indicadoras. Es como si, cuanto más devastación
produzca el neoliberalismo, más ONG surgen. No hay ilustración
más pertinente que el fenómeno de EEUU preparándose
a invadir un país y simultáneamente preparando a las ONG
para que fueran a limpiar los despojos.
Con el fin de asegurarse la financiación
y conseguir que los gobiernos de los países donde trabajan les
permitan actuar, las ONG tienen que presentar su trabajo dentro de un
marco superficial más o menos exento de contexto histórico
o político. Por lo menos, de un contexto histórico o político
inconveniente.
Las llamadas de socorro apolíticas
(y, por lo tanto, extremadamente políticas en realidad) que envían
los países pobres y las regiones en guerra acaban por formar
una imagen en la que aquellas gentes (oscuras) de aquellos países
(oscuros) aparecen como víctimas patológicas. Otro indio
desnutrido más, otro etíope que se muere de hambre, otro
campo de refugiados afganos, otro sudanés mutilado... todos los
cuales necesitan la ayuda del hombre blanco. Estas imágenes refuerzan
sin querer los estereotipos racistas y reafirman las hazañas,
las comodidades y la compasión ("es todo por tu bien") de la
civilización occidental. Son los misioneros seglares del mundo
moderno.
A la larga, a menor escala pero de una
forma más traicionera, el capital de que disponen las ONG tiene
la misma función en la política alternativa que el capital
especulativo que entra y sale de las economías de los países
pobres: empieza a dictar el orden del día, convierte el conflicto
en negociación, despolitiza a la resistencia, interfiere con
los movimientos populares locales que tradicionalmente se han mantenido
por sí solos. Las ONG disponen de fondos para dar empleos a personas
que, de no ser así, trabajarían en los movimientos de
resistencia, pero que de esta manera sienten que están haciendo
algo inmediata y creativamente bueno, y encima se ganan la vida. La
auténtica resistencia política no tiene atajos de esos.
La ONG-ización de la política
amenaza con hacer de la resistencia un trabajo cortés, razonable,
con su salario y su jornada de 9 a 5, más algunos extras. La
verdadera resistencia tiene consecuencias de verdad. Y no paga salarios.
Así llegamos a un tercer peligro
que quiero mencionar hoy: el carácter letal del enfrentamiento
real entre los movimientos de resistencia y los estados cada vez más
represivos. Entre el poder público y los agentes del imperio.
Siempre que la resistencia civil ha mostrado
la más mínima señal de pasar de la acción
simbólica a parecer, aunque sea remotamente, una amenaza, la
represión se vuelve despiadada. Ya hemos visto lo que ocurrió
en las manifestaciones de Seattle, Miami, Göthenberg, Génova.
En Estados Unidos tienen el USA PATRIOT
Act, que se ha convertido en un esquema para la elaboración de
leyes antiterroristas promulgadas en todo el mundo. Se recortan las
libertades con el pretexto de proteger la libertad. Y una vez que cedemos
nuestras libertades, será necesaria una revolución para
conseguir que nos sean devueltas.
Algunos gobiernos tienen mucha experiencia
en recortar libertades y seguir quedando bien. El gobierno indio, veterano
en este juego, alumbra el camino.
A lo largo de los años el gobierno
indio ha promulgado infinidad de leyes que le permiten tratar a casi
cualquier persona de terrorista, insurgente, militante. Tenemos la Ley
de Poderes Especiales de las Fuerzas Armadas, la Ley de Seguridad Pública,
la Ley de Seguridad de Areas Especiales, la Ley de Gangsters, la Ley
de Areas Terroristas y Levantiscas (que oficialmente ya no está
en vigor, pero todavía hay personas a la espera de juicio por
su causa) y, la más reciente, la POTA, Ley de Prevención
del Terrorismo, el antibiótico de amplio espectro para curar
la inconformidad.
También se están tomando
otras medidas, como sentencias de tribunales cuyo efecto es sustraer
la libertad de expresión, el derecho de los funcionarios a la
huelga, el derecho a la vida y al sustento. En la India los tribunales
han comenzado a microgestionar nuestras vidas. Y encima, criticar a
los tribunales es un delito.
Sin embargo, volviendo a las iniciativas
contra el terrorismo, en los últimos diez años el número
de personas que han muerto a manos de la policía y las fuerzas
de seguridad alcanza las decenas de miles. En el estado de Andhra Pradesh
(la niña bonita de la globalización corporativa en la
India) muere cada año una media de 200 "extremistas" en lo que
se suelen llamar "encuentros". La policía de Mumbai presume del
número de "gangsters" que han matado en estos "tiroteos". En
Caxemira, cuya situación es casi de guerra, han muerto unas 80.000
personas desde 1989. Miles de personas simplemente han "desaparecido".
En las provincias del nordeste la situación es similar.
En los últimos años la
policía india ha abierto fuego contra personas desarmadas, en
su mayoría de las castas dalit y adivasi. Su método preferido
es matarlos y a continuación llamarlos terroristas. India no
es la única, por cierto. Hemos visto ocurrir lo mismo en países
como Bolivia, Chile y Sudáfrica. En la era del neoliberalismo,
la pobreza es un crimen y protestar contra ella se define cada vez más
a menudo como terrorismo.
En la India, la POTA (Ley de Prevención
del Terrorismo) se denomina a menudo Ley de Producción del Terrorismo.
Es una ley versátil, un patrón único que puede
aplicarse a cualquiera, desde un agente de Al Qaeda a un conductor de
autobús descontento. Como es el caso de todas las leyes contra
el terrorismo, lo genial de la POTA es que puede ser lo que quiera el
gobierno. Tras el pogromo de 2002 en Gujarat ayudado por el gobierno,
en el que se calcula que 2.000 musulmanes fueron asesinados brutalmente
por multitudes hindúes y 150.000 tuvieron que abandonar sus hogares,
287 personas han sido acusadas bajo la POTA, de las cuales 286 son musulmanas
y una es sikh.
La POTA permite utilizar como evidencia
en un juicio las confesiones extraídas mientras el reo se encuentra
en custodia de la policía. En la práctica, la tortura
tiende a sustituir a la investigación. El Centro de Documentación
sobre Derechos Humanos del Sur de Asia informa que la India presenta
el número más alto del mundo de fallecimientos en custodia
y bajo tortura. Los archivos del gobierno indican que sólo en
2002 hubo 1.307 muertes en custodia judicial.
Hace unos meses formé parte de
un jurado bajo la POTA. A lo largo de dos días escuchamos testimonios
espeluznantes de lo que está ocurriendo en nuestra magnífica
democracia. Hay de todo: desde las personas a las que obligan a beber
orina, a las que desnudan, humillan, aplican electroshock, queman con
colillas o insertan barras de hierro en el ano, hasta las que matan
a palos y patadas.
El nuevo gobierno ha prometido abolir
la POTA. Me sorprendería que esto se llevara a cabo antes de
aprobar otra legislación con un nombre diferente. Si no es la
POTA será la MOTA o algo así.
Cuando se cierran todas las vías
al inconformismo no violento y se acusa de terrorista a toda persona
que protesta contra la violación de los derechos humanos, ¿de
verdad deberíamos sorprendernos al ver que amplias zonas del
país están cuajadas de personas que creen en la lucha
armada y están más o menos fuera del control del estado?
Esto ocurre en Caxemira, en las provincias del nordeste, en grandes
comarcas de Madhia Pradesh, Chattisgarh, Jharkhand y Andhra Pradesh.
La gente normal de estas regiones está atrapada entre la violencia
de los militantes y la del estado.
En Caxemira, el ejército indio
calcula que hay entre 3.000 y 4.000 militantes activos en un momento
dado. Con el objeto de controlarlos el gobierno indio envía unos
500.000 soldados. Está claro que el ejército no sólo
pretende controlar a los militantes, sino a la población entera
de infelices que ven al ejército indio como una fuerza de ocupación.
La Ley de Poderes Especiales de las Fuerzas
Armadas permite no sólo a los oficiales de alto rango, sino incluso
a los suboficiales del ejército, utilizar la fuerza y hasta matar
a cualquier persona bajo sospecha de alterar el orden público.
Primero se impuso en ciertos distritos del estado de Manipur en 1958.
Hoy en día se aplica en prácticamente todo el nordeste
y en Caxemira. La documentación de casos de tortura, desapariciones,
muertes en custodia, violaciones y ejecuciones sumarias a manos de las
fuerzas de seguridad es capaz de revolverle el estómago a cualquiera.
En Andhra Pradesh, en el corazón
de la India, el grupo militante Marxist-Leninist People's War Group,
que llevaba años en la lucha armada violenta y ha sido el principal
foco de atención de muchos de los falsos "encuentros" que cita
la policía de Andhra, celebró su primer mítin público
el día 28 de julio de 2004, en la ciudad de Warangal.
Asistieron a la concentración
cientos de miles de personas. Según la POTA, todos ellos son
terrorristas. ¿Van a detenerlos a todos en algún equivalente
indio a Guantánamo?
Todo el nordeste de la India y el valle
de Caxemira están a punto de explotar. ¿Qué va a
hacer el gobierno con estos millones de personas?
Hoy por hoy no hay en el mundo un tema
de debate tan crucial como la cuestión de las estrategias de
resistencia, y la elección de estrategias no está enteramente
en manos del "public": también está en manos del "sarkar".
Después de todo, cuando EEUU invade
y ocupa Irak como lo ha hecho, con una fuerza militar tan desmesurada,
¿se puede pedir que la resistencia sea de tipo militar convencional?
Para empezar, incluso si fuera convencional seguiría siendo calificada
como terrorista. Parece extraño, pero el arsenal armamentístico
del gobierno de EEUU, su potencia aérea y su artillería
hacen del terrorismo una reacción prácticamente ineludible.
El pueblo compensa la falta de dinero y poder con estrategias y astucias.
En estos tiempos de ansiedad y desesperación,
si los gobiernos no hacen lo posible por respetar la resistencia no
violenta, están favoreciendo por omisión a los que optan
por la violencia. La condena del terrorismo por los gobiernos no es
creíble si no se muestran dispuestos a cambiar ante el inconformismo
no violento.
Sin embargo se hace lo contrario: reventar
los movimientos de resistencia; comprar, destruir o sencillamente ignorar
cualquier movilización u organización política
de masas.
Entretanto, los gobiernos y los grandes
medios de comunicación, sin olvidar la industria cinematográfica,
prodigan su tiempo, atención, tecnología, investigación
y admiración en la guerra y el terrorismo. Es la deificación
de la violencia.
El mensaje que lanzan es angustioso y
peligroso: si quieres expresar una queja de carácter público,
la violencia es más eficaz que la no violencia.
A medida que se ensancha el abismo entre
el rico y el pobre; a medida que se hace más urgente la necesidad
de adueñarse de los recursos mundiales y controlarlos con el
fin de alimentar a la ingente maquinaria capitalista, el descontento
no hará más que aumentar.
Para aquellos de nosotros que nos encontramos
en el bando contrario al imperio, la humillación se está
haciendo insoportable.
Cada uno de los niños iraquíes
asesinados por Estados Unidos era hijo nuestro. Cada uno de los prisioneros
torturados en Abu Ghraib era compañero nuestro. Cada uno de sus
gritos era nuestro. Cuando se les humillaba, se nos humillaba a nosotros.
Los soldados estadounidenses que luchan en Irak, la mayoría voluntarios
reclutados en los pueblos y en los barrios pobres, son tan víctimas
como los iraquíes del horrendo proceso que les exige morir por
una victoria que nunca será la suya.
Los mandarines del mundo de las corporaciones,
los directivos, los banqueros, los políticos, los jueces y los
generales nos observan desde arriba meneando la cabeza con severidad:
"No Hay Alternativa", sentencian, y sueltan a los perros de la guerra.
Y entonces, de las ruinas de Afganistán,
de los escombros de Irak y Tchetchênia, de las calles de Palestina
y las montañas de Caxemira, de los montes y altiplanos de Colombia
y de las selvas de Andhra Pradesh y Assam, surge una escalofriante respuesta:
"No hay otra alternativa que el terrorismo". Terrorismo. Lucha armada.
Insurgencia. Llámenle como quieran.
El terrorismo es desalmado, feo y deshumanizante
tanto para los que lo perpetran como para sus víctimas. Pero
también lo es la guerra. Podría decirse que el terrorismo
es la guerra privatizada. Los terroristas son los comerciantes en el
libre mercado de la guerra. Personas que no creen que el estado tenga
el monopolio del uso legítimo de la violencia.
La sociedad humana se dirige a un lugar
terrible.
Evidentemente, hay una alternativa al
terrorismo: se llama justicia.
Ha llegado la hora de reconocer que por
muchos armamentos, segadoras de margaritas, sistemas de dominación
total o falsos consejos de gobierno y loya jirgas que se tengan, la
paz no se puede comprar a costa de la justicia.
La ambición de algunos por la
hegemonía y la preponderancia tendrá como contrapartida
el anhelo, aún más intenso, de los otros por la dignidad
y la justicia.
La forma en que se manifieste la batalla,
el que sea hermosa o cruenta, depende de nosotros.
Discurso completo pronunciado por en
San Francisco, California, el 16 de agosto de 2004
Copyright 2004 Arundhati Roy. Para reimpresión
contactar con
Traducido por María Fernández
y revisado por Alfred Sola
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