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ENSAIOS::::::::::::::::::::::::::::::ERROS FATAIS

 

 


Erros fatais

As mentiras de nosso tempo

por AMY GOODMAN e DAVID GOODMAN

27 de maio de 2004

Tradução Imediata

Em nosso novo livro, The Exception To the Rulers: Exposing Oily Politicians, War Profiteers and the Media That Love Them, (A exceção aos que ditam as regras: expondo políticos petr-oleosos, os que levam vantagem com a guerra e a mídia que os ama) titulamos um dos capítulos: "As mentiras de nosso tempo", para examinar como a cobertura do The New York Times sobre o Iraque e os seus supostos estoques de armas de destruição em massa contribuíram para levar o país à guerra. Ontem, o The New York Times, pela primeira vez, levantou questões sobre a sua própria cobertura, em uma nota do editor de 1.100 palavras. Eis um trecho da seção do nosso livro a respeito do New York Times e do Iraque.

"De um ponto de vista de marketing, não se introduzem produtos novos no mês de agosto." -- Andrew H. Card, Diretor de Pessoal da Casa Branca, falando sobre a campanha de Relações Públicas da guerra do Iraque, em 6 de setembro de 2002

Enquanto estava se intensificando o clima que culminaria com a guerra, um grande escândalo estava se tornando público no The New York Times–o jornal que define a agenda noticiosa para as outras mídias. O Times admitiu que, por vários anos, um repórter de 27 anos chamado Jayson Blair tinha estado ludibriando seus editores e falsificando histórias. Ele fingiu ter ido a certos lugares onde não foi, fabricou citações e simplesmente mentiu com o fim de poder dar algum furo sensacionalista. Por isso, Blair foi despedido. Mas o The Times foi além: expôs uma matéria de 7.000 palavras em cinco páginas sobre o jovem repórter, desnudando seus atos inconseqüentes de ordem pessoal e profissional.

O Times confessou ter chegado ao mais baixo nível de sua história de 152 anos. Eu concordo. Mas não por causa do que aconteceu com Jayson Blair. E sim devido à cobertura feita pelo The Times com relação à questão Bush-Blair.

Quando George W. Bush e Tony Blair defenderam sua posição fraudulenta de atacar o Iraque, o The Times, juntamente com a maioria dos veículos da mídia corporativa dos EUA, tornaram-se líderes da torcida para a guerra. E enquanto Jayson Blair estava sendo crucificado pelos seus pecados jornalísticos, Judith Miller, a veterana correspondente do Times, além de autora de best-sellers, lotava as primeiras páginas do The Times com propaganda do governo repassada sem qualquer questionamento. Ao contrário das trapaças de Blair, as mentiras de Miller forneceram o pretexto para começar a guerra. As mentiras dela custaram vidas humanas.

Se pelo menos o The New York Times tivesse feito o mesmo tipo de investigação sobre os relatórios de Miller como tinha feito com Jayson Blair.

O ataque propagandístico da Casa Branca foi lançado em 7 de setembro de 2002, numa coletiva à imprensa em Camp David. O primeiro ministro britânico Tony Blair estava de pé, ao lado de seu co-conspirador, o Presidente George W. Bush. Juntos, eles declararam que a evidência contida num relatório publicado pela Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (UN International Atomic Energy Agency, ou IAEA) mostrava que o Iraque estava somente "seis meses distante" de construir armas nucleares.

"Não sei de que outras evidências precisamos", exultou Bush.

Na realidade, nenhum tipo de evidência ajudaria, já que não existia nenhum relatório da IAEA. Mas naquele momento, poucos jornalistas americanos da mídia corporativa questionaram as mentiras deslavadas dos líderes. Ao invés disso, no dia seguinte, a "evidência" despontou no New York Times do domingo, sob um título assinado por Michael Gordon e Judith Miller. "Mais de uma década depois que Saddam Hussein concordou em renunciar às armas de destruição em massa", afirmaram com autoridade, "o Iraque está escalando sua busca por armas nucleares e embarcou num caça internacional para obter materiais que lhe permitira construir uma bomba atômica, altos funcionários da administração Bush declararam hoje".

Num exemplo revelador de como a matéria amplificou a politicagem da administração, os autores incluíram a frase que em breve seria repetida pelo Presidente Bush e seus altos assessores: "O primeiro sinal de fumaça, argumentam [os altos funcionários da administração], poderá ser uma nuvem em forma de cogumelo".

John R. MacArthur, editor da Harper’s e autor de "Second Front: Censorship and Propaganda in the Gulf War" (Segunda Frente: Censura e Propaganda na Guerra do Golfo), soube que destino dar à bomba em sua primeira página. "Num vergonhoso fragmento de estenografia", escreveu ele, Gordon e Miller "inflaram um vazamento da administração, transformando-o em algo de parece um iminente Armageddon".

A administração Bush sabia exatamente o que fazer com a história com a qual alimentaram Gordon e Miller. No dia em que o The Times publicou a matéria, o vice-presidente Dick Cheney fez todo o giro dos talk shows do domingo para fazer avançar as falsas suposições da administração. Em Meet the Press, da NBC, Cheney declarou que o Iraque tinha adquirido tubos de alumínio para produzir urânio enriquecido. Não importou nada o fato de que a IAEA tivesse desmentido o fato, tanto antes quanto depois que a alegação tinha sido feita. Mas Cheney não queria que a audiência acreditasse apenas em sua palavra. "Há uma matéria no The New York Times desta manhã…", disse ele, satisfeito consigo mesmo".

Essa foi a clássica desinformação bifásica: a Casa Branca vaza uma mentira ao The Times, o jornal publica como verdade absoluta, e depois a Casa Branca, convenientemente, se mascara por trás da credibilidade do The Times.

"O que importava", escreveu MacArthur, "era o desenrolar desimpedido de um comercial para a guerra".

Judith Miller estava apenas em fase de aquecimento. Reportando para o jornal mais influente dos EUA, Miller continuou a soltar aos quatro ventos os vazamentos da administração e de outras fontes falsas como base para suas histórias de fazer saltar os olhos, as quais se apoiavam as falsas premissas da administração para a guerra. "Se os jornalistas que vivem ao lado de suas fontes fossem obrigados a morrer do lado de suas fontes", Jack Shafer escreveu em Slate, "Miller já estaria fazendo feder o túmulo de sua família agora."

Depois da guerra, Shafer ressaltou: "Nenhuma das alegações sobre armas químicas, biológicas ou nucleares repassadas para Miller foram peneiradas, apesar dos furiosos cruzamentos do solo iraquiano efetuados pelos caçadores de armas dos EUA".

O New York Times publicou alguma correção? Esclarecimentos? Cabeças caíram por isso? Nem por sonho: os "furos" de Judith Miller continuaram orgulhosamente a figurar nas primeiras páginas.

Eis apenas algumas das correções que o The Times deveria ter publicado depois da campanha de um ano de alegações falsas feitas por uma de suas mais importantes jornalistas, Judith Miller.

DO DEPARTAMENTO DE CORREÇÕES DO THE NEW YORK TIMES

Furo: "USA diz que Hussein intensifica busca por partes da Bomba-A" por Judith Miller e Michael R. Gordon, 8 de setembro, 2002. Os autores citam Ahmed al-Shemri (um pseudônimo), que sustenta ter trabalhado no programa de armas químicas do Iraque antes de desertar em 2000." "’Todo o Iraque é um grande armazém’, disse o Sr. Shemri, que alega ter trabalhado por muitos anos na Muthanna State Enterprise, previamente o estabelecimento de armas químicas do Iraque." Os autores citam Shemri afirmando que o Iraque está estocando "12.500 galões de antraz, 2.500 galões de gás gangreno, 1.250 galões de aflatoxin, e 2.000 galões de botulino em todo o país".

Opa: Como os inspetores de armas da ONU afirmaram previamente—e os inspetores de armas dos EUA confirmaram em setembro de 2003—nenhuma dessas alegações era verdadeira. A fonte anônima é uma dos muitos desertores iraquianos que fez falsas declarações sensacionalistas que foram defendidas e repassadas por Miller e pelo The Times.

Furo: "Casa Branca lista as etapas da construção de armas proibidas pelo Iraque", por Judith Miller e Michael Gordon, 13 de setembro de 2002. O artigo cita a alegação da Casa Branca de que o Iraque estava tentando comprar tubos de alumínio para o seu programa de armas nucleares.

Opa: Em vez de publicar uma história relevante sobre como os EUA citaram falsamente a ONU para sustentar suas alegações de que o Iraque estava expandindo seu programa nuclear, Miller e Gordon repetiram e enfeitaram a mentira.

Compare isso ao parágrafo principal de uma matéria publicada no quotidiano britânico The Guardian, de 9 de setembro: "A Agência Internacional para a Energia Atômica" não tem nenhuma evidência de que o Iraque esteja desenvolvendo armas nucleares num local previamente destruído por inspetores da ONU, apesar das reivindicações feitas durante o fim de semana por Tony Blair, fontes diplomáticas ocidentais disseram ao The Guardian ontem." A matéria continua dizendo que a IAEA "emitiu uma declaração insistindo que ‘não há nenhuma informação nova’ sobre o programa de energia nuclear do Iraque desde dezembro de 1998, quando seus inspetores deixaram o Iraque".

A matéria de Miller, soltada aos quatro ventos, contribuiu ao clima do tempo e do The Times. Um mês depois, numerosos representantes no Congresso citaram a ameaça nuclear como uma razão para votarem a favor, autorizando a guerra.

Furo: "USA falhou em seus esforços para unir os dissidentes iraquianos", por Judith Miller, 2 de outubro de 2002. Citando Ahmed Chalabi e Richard Perle, do Departamento de Defesa, sua matéria afirmava: "O Congresso Nacional Iraquiano é, sem sombra de dúvida, a fonte mais importante de inteligência a respeito de Saddam Hussein".

Miller divulga a reclamação principal do Congresso Nacional Iraquiano: "Os dissidentes iraquianos e os funcionários da administração reclamam que [o Departamento de Estado e a CIA] também tentaram levantar dúvidas sobre as informações fornecidas pelos desertores que a organização do Sr. Chalabi conseguiu fazer sair do Iraque".

Opa: Miller encabeçou a campanha pela causa de Chalabi, o líder exilado iraquiano que tem exercido forte lobby em Washington por mais de uma década, procurando apoio para depor o regime de Saddam Hussein. Como o The Washington Post revelou, Miller escreveu para o correspondente estrangeiro veterano John Burns, que estava trabalhando em Bagdá na época, que Chalabi "forneceu a maioria das primeiras páginas exclusivas sobre as armas de destruição em massa a nosso jornal".

Talvez os leitores do Times estejam interessados em saber os detalhes de como Ahmed Chalabi foi comprado e pago pela CIA. Chalabi encabeça o Congresso Nacional Iraquiano, uma organização de exilados iraquianos criada pela CIA em 1992, com a ajuda do Rendon Group, uma poderosa empresa de relações públicas que tem trabalhado intensamente para as duas administrações Bush. Entre 1992 e 1996, a CIA secretamente afunilou $ 12 milhões de dólares ao CNI de Chalabi. Em 1998, a administração Clinton deu a Chalabi o controle de outros $98 milhões de dólares, dinheiro esse proveniente dos contribuintes dos EUA. A credibilidade de Chalabi tem sido sempre muito questionada: ele foi declarado culpado in absentia na Jordânia por ter roubado cerca de $ 500 milhões de dólares de um banco que ele estabeleceu, deixando os acionistas a ver navios. Ele tem sido acusado por exilados iraquianos de embolsar pelo menos $ 4 milhões dólares de fundos da CIA.

Na fase que desembocou na guerra, a CIA despediu Chalabi, como pessoa não confiável. Mas ele era o queridinho dos falcões do Pentágono, emprestando uma face iraquiana ao desejo de declarar a guerra. Assim, o Pentágono estabeleceu uma nova entidade, o Office of Special Plans (Escritório de Planos Especiais), para encabeçar os pontos de vista dos desertores desacreditados do CNI, que o ajudaram a construir a justificativa para a guerra.

Como Howard Kurtz perguntou posteriormente no The Washington Post: "Será que Chalabi tem usado o The Times para incitar a batida dos tambores que clamam que o Iraque esteja escondendo armas de destruição em massa?"

Furo: "C.I.A. busca vínculo entre o Iraque e a varíola soviética", por Judith Miller, 3 de dezembro de 2002. A matéria alega que "o Iraque obteve uma espécie particularmente virulenta de varíola de cientista russo." A história acrescenta: "A informação chegou até o governo americano a partir de um informante cuja identidade não foi revelada".

A varíola foi citada pelo Presidente Bush como uma das "armas de destruição em massa" possuídas pelo Iraque e que, portanto, justificava um perigoso programa de inoculação nacional—assim como de uma invasão.

Opa: Depois de três meses de busca no Iraque, "A ‘Equipe da Varíola’ só revelou sinais contrários: equipamento deficiente que foi tornado inoperante pelos inspetores da ONU, cientistas iraquianos confiáveis que não deram nenhuma indicação de que tinham estado trabalhando com varíola, e um laboratório que se acreditava ter voltado a funcionar, mas que estava recoberto de teias de aranha", reportou a Associated Press em setembro de 2003.

Furo: "Armas ilícitas mantidas até a véspera da guerra, diz-se ter afirmado um cientista iraquiano", por Judith Miller, 21 de abril de 2003. Neste artigo de primeira página, Miller cita um militar americano que repassa a afirmação de "um homem que disse ser um cientista iraquiano" sob custódia dos EUA. O "cientista" clama que o Iraque destruiu seu estoque de armas de destruição em massa dias antes da guerra ter iniciado, que o regime tinha transferido as armas para a Síria, e que Saddam Hussein estava trabalhando intimamente em contato com a Al Qaeda.

Quem é o mensageiro dessa bomba? Miller nos diz somente que lhe permitiram "vê-lo a distância, nos locais onde ele disse que o material do programa de armas estava enterrado. Vestido em roupas indefiníveis e usando um boné de beisebol, ele indicou vários pontos na areia onde disse estarem enterrados precursores químicos e outros materiais para armas".

E daí se seguiram os termos da isenção de responsabilidade: "Esta repórter não teve permissão de entrevistar o cientista ou visitar sua residência. Nem lhe foi permitido escrever sobre a descoberta do cientista durante três dias, e o texto teve que ser submetido para verificação aos oficiais militares. Esses oficiais solicitaram detalhes de quais substâncias químicas foram encontradas para serem eliminadas." Nenhuma prova. Nenhum nome. Nenhuma substância química. Somente um boné de beisebol e a credibilidade de Miller e do The Times—para garantir que um "cientista" que, com toda conveniência, confirma as alegações da administração Bush. Miller, que estava enquistada com a MET Alpha, uma unidade militar à procura de armas de destruição em massa, calibrou suas afirmações sensacionalistas no dia seguinte, no programa NewsHour with Jim Lehrer da PBS:

 

P: A unidade com a qual você tem viajado achou qualquer prova da existência de armas de destruição em massa no Iraque?

JUDITH MILLER: Bem, acho que eles encontraram algo mais que a fumaça que indica o fogo… O que eles acharam é… uma bala certeira, em …. na forma de uma pessoa, um indivíduo iraquiano, um cientista; foi assim que o chamamos, que realmente trabalhou nos programas, e que os conhece de primeira mão.

Q: Mas isso confirma, de algum modo, a insistência do governo dos EUA de que depois da guerra, várias línguas se soltariam, e que haveria pessoas dispostas a ajudar?

JUDITH MILLER: Sim, claramente… É o que a administração Bush fez, finalmente. Eles mudaram o ambiente político, e eles capacitaram as pessoas como os cientistas encontrados pelo MET Alpha a abrirem o jogo.

Opa: Quanto mais se examinou a bala certeira, mais embaçada ela ficou… Três meses depois, Miller reconheceu que o cientista era apenas "um militar sênior da inteligência iraquiana." Suas alegações explosivas evaporaram.

Observação final do Departamento de Correções: O The Times lamenta sinceramente a ocorrência de qualquer guerra ou perda de vidas humanas que esses erros possam ter ajudado a provocar.

Virando fumaça

Certa vez, Tom Wolfe escreveu sobre um correspondente do Times feliz-com-a-guerra no Vietnã (mesma idéia, guerra diferente): A administração estava "tocando [o repórter] do The New York Times como se fosse uma ocarina, como se estivessem soltando fumaça de sua pipa e seus dedos estivessem produzindo a música certa, perfeita, muito melhor do que se eles mesmos a estivessem tocando." Mas quem estava tocando quem? O The Washington Post reportou que enquanto Miller estava enquistada na MET Alpha, seu papel nas operações da unidade tornou-se tão central que a unidade ficou conhecida como "a equipe da Judith Miller". Em uma ocasião, ela discordou com a decisão de transferir a unidade para uma outra área, e ameaçou enviar um relatório crítico ao The Times sobre a ação. Quando ela levou seu protesto a um general de duas estrelas, a decisão foi anulada. Um oficial do exército disse ao Post: "Judith estava sempre fazendo ameaças de se queixar ao The New York Times ou ao secretário de defesa. As ameaças eram diretas e descaradas".

Posteriormente, ela desempenhou papel de estrela, numa cerimônia em que o líder da MET Alpha foi promovido de posição. Outros oficiais ficaram surpresos ao verem Miller alfinetar um broche, indicando nova posição no uniforme do comandante Richard Gonzales. Ele a agradeceu pelas suas "contribuições" à unidade. Em abril de 2003, a MET Alpha viajou até o complexo do líder do Congresso Nacional Iraquiano, Ahmed Chalabi "sob direção de Judy", onde interrogaram e pegaram sob custódia um homem iraquiano que estava na lista de pessoas procuradas pelo Pentágono—apesar do fato de que o papel da MET Alpha era somente procurar armas de destruição em massa. Um oficial disse ao Post: "É impossível exagerar o impacto que ela teve na missão desta unidade, e esse impacto não foi para melhor".

Depois de um ano de falsos furos jornalísticos dados por Judith Miller, o jornal concedeu-se um pouco de cobertura. Não correções, só cobertura. Em 28 de setembro de 2003, o repórter do Times Douglas Jehl surpreendentemente desmascarou as fontes de Miller. Em sua matéria, titulada AGÊNCIA MINIMIZA IMPORTÂNCIA DAS INFORMAÇÕES FORNECIDAS POR DESERTORES IRAQUIANOS, Jehl revelou: "Uma avaliação interna da Agência para a Inteligência da Defesa concluiu que a maioria das informações fornecidas pelo Congresso Nacional Iraquiano era de pouco ou nenhum valor, segundo os oficiais federais informados do arranjo. Além disso, vários desertores iraquianos apresentados a agentes da inteligência dos EUA pela organização de exilados e seu líder, Ahmed Chalabi, inventaram ou exageraram suas credenciais como se fossem pessoas com conhecimento direto do governo iraquiano e do programa de armas não convencional", disseram os oficiais.

O Congresso Nacional Iraquiano tinha disponibilizado alguns dos desertores ao… The New York Times, os quais reportaram suas reivindicações sobre os prisioneiros e o programa de armas do país. Puf! Milhares de palavras viraram fumaça, no que só pode ser chamado de propaganda de alinhamento.

Essa confissão do Times foi muito pouco e muito tarde. Depois de uma guerra desnecessária, durante uma ocupação brutal, e com o custo de milhares de vidas, o The Times reconheceu obliquamente que estava reciclando desinformação. Os relatórios de Miller tiveram um papel inestimável na propaganda da guerra da administração. Eles deram legitimidade pública a mentiras deslavadas, fornecendo aquilo que parecia confirmação independente de especulação selvagem e falsas acusações. "O que Miller tem feito, no decorrer do tempo, viola gravemente várias políticas do código de conduta do Times relativo aos departamentos editoriais e noticiosos", escreveu William E. Jackson em Editor & Publisher. "Jayson Blair foi apenas um desvio oportunista… Miller atinge diretamente o coração do funcionamento normal da máquina de notícias".

Mais do que isso, as falsas reportagens de Miller foram fundamentais para justificar a guerra. E a servidão sem-vergonha do The Times com relação à agenda da guerra da administração não acabou no Iraque.

Em 16 de setembro de 2003, o The Times publicou uma matéria com o título ALTO OFICIAL DOS EUA NIVELA ACUSAÇÃO DE ARMAS CONTRA A SÍRIA. O artigo, incrivelmente não crítico e sem critério, foi praticamente um trecho do testemunho a ser dado aquele dia pelo falcão John R. Bolton, sub-secretário de estado para o controle de armas. O artigo incluía uma curiosa advertência: O testemunho "foi fornecido ao New York Times por indivíduos que acreditam que as acusações contra a Síria têm recebido insuficiente atenção". O artigo certamente resolveu o problema.

A autoria do artigo? De Judith Miller—preparando sua próxima frente de guerra.

Amy Goodman é a âncora do programa Democracy Now. Ela e David Goodman são os autores do livro Exception to the Rulers.

 

May 27, 2004

Fatal Errors

The Lies of Our Times

By AMY GOODMAN and DAVID GOODMAN

In our new book, The Exception To the Rulers: Exposing Oily Politicians, War Profiteers and the Media That Love Them, we titled one chapter "The Lies of Our Times" to examine how The New York Times coverage on Iraq and its alleged stockpiles of weapons of mass destruction helped lead the country to war. Yesterday, The New York Times, for the first time, raised questions about its own coverage in an 1,100-word editor's note. Here is an excerpt from our section of the book on the New York Times and Iraq.

"From a marketing point of view, you don't introduce new products in August." -- Andrew H. Card, White House Chief of Staff speaking about the Iraq war P.R. campaign, September 6, 2002

In the midst of the buildup to war, a major scandal was unfolding at The New York Times-the paper that sets the news agenda for other media. The Times admitted that for several years a 27-year-old reporter named Jayson Blair had been conning his editors and falsifying stories. He had pretended to be places he hadn't been, fabricated quotes, and just plain lied in order to tell a sensational tale. For this, Blair was fired. But The Times went further: It ran a 7,000-word, five-page expose on the young reporter, laying bare his personal and professional escapades.

The Times said it had reached a low point in its 152-year history. I agreed. But not because of the Jayson Blair affair. It was The Times coverage of the Bush-Blair affair.

When George W. Bush and Tony Blair made their fraudulent case to attack Iraq, The Times, along with most corporate media outlets in the United States, became cheerleaders for the war. And while Jayson Blair was being crucified for his journalistic sins, veteran Times national security correspondent and best-selling author Judith Miller was filling The Times' front pages with unchallenged government propaganda. Unlike Blair's deceptions, Miller's lies provided the pretext for war. Her lies cost lives.

If only The New York Times had done the same kind of investigation of Miller's reports as it had with Jayson Blair.

The White House propaganda blitz was launched on September 7, 2002, at a Camp David press conference. British Prime Minister Tony Blair stood side by side with his co-conspirator, President George W. Bush. Together, they declared that evidence from a report published by the UN International Atomic Energy Agency (IAEA) showed that Iraq was "six months away" from building nuclear weapons.

"I don't know what more evidence we need," crowed Bush.

Actually, any evidence would help-there was no such IAEA report. But at the time, few mainstream American journalists questioned the leaders' outright lies. Instead, the following day, "evidence" popped up in the Sunday New York Times under the twin byline of Michael Gordon and Judith Miller. "More than a decade after Saddam Hussein agreed to give up weapons of mass destruction," they stated with authority, "Iraq has stepped up its quest for nuclear weapons and has embarked on a worldwide hunt for materials to make an atomic bomb, Bush administration officials said today."

In a revealing example of how the story amplified administration spin, the authors included the phrase soon to be repeated by President Bush and all his top officials: "The first sign of a 'smoking gun,' [administration officials] argue, may be a mushroom cloud."

Harper's publisher John R. MacArthur, author of Second Front: Censorship and Propaganda in the Gulf War, knew what to make of this front-page bombshell. "In a disgraceful piece of stenography," he wrote, Gordon and Miller "inflated an administration leak into something resembling imminent Armageddon."

The Bush administration knew just what to do with the story they had fed to Gordon and Miller. The day The Times story ran, Vice President Dick Cheney made the rounds on the Sunday talk shows to advance the administration's bogus claims. On NBC's Meet the Press, Cheney declared that Iraqhad purchased aluminum tubes to make enriched uranium. It didn't matter that the IAEA refuted the charge both before and after it was made. But Cheney didn't want viewers just to take his word for it. "There's a story in The New York Times this morning," he said smugly. "And I want to attribute The Times."

This was the classic disinformation two-step: the White House leaks a lie to The Times, the newspaper publishes it as a startling expose, and then the White House conveniently masquerades behind the credibility of The Times.

"What mattered," wrote MacArthur, "was the unencumbered rollout of a commercial for war."

Judith Miller was just getting warmed up. Reporting for America's most influential newspaper, Miller continued to trumpet administration leaks and other bogus sources as the basis for eye-popping stories that backed the administration's false premises for war. "If reporters who live by their sources were obliged to die by their sources," Jack Shafer wrote later in Slate, "Miller would be stinking up her family tomb right now."

After the war, Shafer pointed out, "None of the sensational allegations about chemical, biological, or nuclear weapons given to Miller have panned out, despite the furious crisscrossing of Iraq by U.S. weapons hunters."

Did The New York Times publish corrections? Clarifications? Did heads roll? Not a chance: Judith Miller's "scOpa" continued to be proudly run on the front pages.

Here are just some of the corrections The Times should have run after the year-long campaign of front-page false claims by one of its premier reporters, Judith Miller.

FROM THE NEW YORK TIMES DEPARTMENT OF CORRECTIONS

Scoop: "U.S. Says Hussein Intensifies Quest for A-Bomb Parts," by Judith Miller and Michael R. Gordon, September 8, 2002. The authors quote Ahmed al-Shemri (a pseudonym), who contends that he worked in Iraq's chemical weapons program before defecting in 2000. " 'All of Iraq is one large storage facility,' said Mr. Shemri, who claimed to have worked for many years at the Muthanna State Enterprise, once Iraq's chemical weapons plant." The authors quote Shemri as stating that Iraq is stockpiling "12,500 gallons of anthrax, 2,500 gallons of gas gangrene, 1,250 gallons of aflatoxin, and 2,000 gallons of botulinum throughout the country."

Opa: As UN weapons inspectors had earlier stated-and U.S. weapons inspectors confirmed in September 2003-none of these claims were true. The unnamed source is one of many Iraqi defectors who made sensational false claims that were championed by Miller and The Times.

Scoop: "White House Lists Iraq Steps to Build Banned Weapons," by Judith Miller and Michael Gordon, September 13, 2002. The article quotes the White House contention that Iraq was trying to purchase aluminum pipes to assist its nuclear weapons program.

Opa: Rather than run a major story on how the United States had falsely cited the UN to back its claim that Iraq was expanding its nuclear weapons program, Miller and Gordon repeated and embellished the lie.

Contrast this with the lead paragraph of a story that ran in the British daily The Guardian on September 9: "The International Atomic Energy Agency has no evidence that Iraq is developing nuclear weapons at a former site previously destroyed by UN inspectors, despite claims made over the weekend by Tony Blair, western diplomatic sources told The Guardian yesterday." The story goes on to say that the IAEA "issued a statement insisting it had 'no new information' on Iraq's nuclear program since December 1998 when its inspectors left Iraq."

Miller's trumped-up story contributed to the climate of the time and The Times. A month later, numerous congressional representatives cited the nuclear threat as a reason for voting to authorize war.

Scoop: "U.S. Faulted Over Its Efforts to Unite Iraqi Dissidents," by Judith Miller, October 2, 2002. Quoting Ahmed Chalabi and Defense Department adviser Richard Perle, this story stated: "The INC [Iraqi National Congress] has been without question the single most important source of intelligence about Saddam Hussein."

Miller airs the INC's chief complaint: "Iraqi dissidents and administration officials complain that [the State Department and CIA] have also tried to cast doubt on information provided by defectors Mr. Chalabi's organization has brought out of Iraq."

Opa: Miller championed the cause of Chalabi, the Iraqi exile leader who had been lobbying Washington for over a decade to support the overthrow of Saddam Hussein's regime. As The Washington Post revealed, Miller wrote to Times veteran foreign correspondent John Burns, who was working in Baghdad at the time, that Chalabi "has provided most of the front page exclusives on WMD [weapons of mass destruction] to our paper."

Times readers might be interested to learn the details of how Ahmed Chalabi was bought and paid for by the CIA. Chalabi heads the INC, an organization of Iraqi exiles created by the CIA in 1992 with the help of the Rendon Group, a powerful public relations firm that has worked extensively for the two Bush administrations. Between 1992 and 1996, the CIA covertly funneled $12 million to Chalabi's INC. In 1998, the Clinton administration gave Chalabi control of another $98 million of U.S. taxpayer money. Chalabi's credibility has always been questionable: He was convicted in absentia in Jordan of stealing some $500 million from a bank he established, leaving shareholders high and dry. He has been accused by Iraqi exiles of pocketing at least $4 million of CIA funds.

In the lead-up to war, the CIA dismissed Chalabi as unreliable. But he was the darling of Pentagon hawks, putting an Iraqi face on their warmongering. So the Pentagon established a new entity, the Office of Special Plans, to champion the views of discredited INC defectors who helped make its case for war.

As Howard Kurtz later asked in The Washington Post: "Could Chalabi have been using The Times to build a drumbeat that Iraq was hiding weapons of mass destruction?"

Scoop: "C.I.A. Hunts Iraq Tie to Soviet Smallpox," by Judith Miller, December 3, 2002. The story claims that "Iraq obtained a particularly virulent strain of smallpox from a Russian scientist." The story adds later: "The information came to the American government from an informant whose identity has not been disclosed."

Smallpox was cited by President Bush as one of the "weapons of mass destruction" possessed by Iraq that justified a dangerous national inoculation program-and an invasion.

Opa: After a three-month search of Iraq, " 'Team Pox' turned up only signs to the contrary: disabled equipment that had been rendered harmless by UN inspectors, Iraqi scientists deemed credible who gave no indication they had worked with smallpox, and a laboratory thought to be back in use that was covered in cobwebs," reported the Associated Press in September 2003.

Scoop: "Illicit Arms Kept Till Eve of War, an Iraqi Scientist Is Said to Assert," by Judith Miller, April 21, 2003. In this front-page article, Miller quotes an American military officer who passes on the assertions of "a man who said he was an Iraqi scientist" in U.S. custody. The "scientist" claims that Iraq destroyed its WMD stockpile days before the war began, that the regime had transferred banned weapons to Syria, and that Saddam Hussein was working closely with Al Qaeda.

Who is the messenger for this bombshell? Miller tells us only that she "was permitted to see him from a distance at the sites where he said that material from the arms program was buried. Clad in nondescript clothes and a baseball cap, he pointed to several spots in the sand where he said chemical precursors and other weapons material were buried."

And then there were the terms of this disclosure: "This reporter was not permitted to interview the scientist or visit his home. Nor was she permitted to write about the discovery of the scientist for three days, and the copy was then submitted for a check by military officials. Those officials asked that details of what chemicals were uncovered be deleted." No proof. No names. No chemicals. Only a baseball cap-and the credibility of Miller and The Times-to vouch for a "scientist" who conveniently backs up key claims of the Bush administration. Miller, who was embedded with MET Alpha, a military unit searching for WMDs, pumped up her sensational assertions the next day on PBS's NewsHour with Jim Lehrer:

 

Q: Has the unit you've been traveling with found any proof of weapons of mass destruction in Iraq?

JUDITH MILLER: Well, I think they found something more than a smoking gun. What they've found...is a silver bullet in the form of a person, an Iraqi individual, a scientist, as we've called him, who really worked on the programs, who knows them firsthand.

Q: Does this confirm in a way the insistence coming from the U.S. government that after the war, various Iraqi tongues would loosen, and there might be people who would be willing to help?

UDITH MILLER: Yes, it clearly does.... That's what the Bush administration has finally done. They have changed the political environment, and they've enabled people like the scientists that MET Alpha has found to come forth.

Opa: The silver bullet got more tarnished as it was examined. Three months later, Miller acknowledged that the scientist was merely "a senior Iraqi military intelligence official." His explosive claims vaporized.

A final note from the Department of Corrections: The Times deeply regrets any wars or loss of life that these errors may have contributed to.

UP IN SMOKE

Tom Wolfe once wrote about a war-happy Times correspondent in Vietnam (same idea, different war): The administration was "playing [the reporter] of The New York Times like an ocarina, as if they were blowing smoke up his pipe and the finger work was just right and the song was coming forth better than they could have played it themselves." But who was playing whom? The Washington Post reported that while Miller was embedded with MET Alpha, her role in the unit's operations became so central that it became known as the "Judith Miller team." In one instance, she disagreed with a decision to relocate the unit to another area and threatened to file a critical report in The Times about the action. When she took her protest to a two-star general, the decision was reversed. One Army officer told the Post, "Judith was always issuing threats of either going to The New York Times or to the secretary of defense. There was nothing veiled about that threat."

Later, she played a starring role in a ceremony in which MET Alpha's leader was promoted. Other officers were surprised to watch as Miller pinned a new rank on the uniform of Chief Warrant Officer Richard Gonzales. He thanked her for her "contributions" to the unit. In April 2003, MET Alpha traveled to the compound of Iraqi National Congress leader Ahmed Chalabi "at Judy's direction," where they interrogated and took custody of an Iraqi man who was on the Pentagon's wanted list-despite the fact that MET Alpha's only role was to search for WMDs. As one officer told the Post, "It's impossible to exaggerate the impact she had on the mission of this unit, and not for the better."

After a year of bogus scOpa from Miller, the paper gave itself a bit of cover. Not corrections-just cover. On September 28, 2003, Times reporter Douglas Jehl surprisingly kicked the legs out from under Miller's sources. In his story headlined AGENCY BELITTLES INFORMATION GIVEN BY IRAQ DEFECTORS, Jehl revealed: An internal assessment by the Defense Intelligence Agency has concluded that most of the information provided by Iraqi defectors who were made available by the Iraqi National Congress was of little or no value, according to federal officials briefed on the arrangement. In addition, several Iraqi defectors introduced to American intelligence agents by the exile organization and its leader, Ahmed Chalabi, invented or exaggerated their credentials as people with direct knowledge of the Iraqi government and its suspected unconventional weapons program, the officials said.

The Iraqi National Congress had made some of these defectors available to...The New York Times, which reported their allegations about prisoners and the country's weapons program. Poof. Up in smoke went thousands of words of what can only be called rank propaganda.

This Times confession was too little, too late. After an unnecessary war, during a brutal occupation, and several thousand lives later, The Times obliquely acknowledged that it had been recycling disinformation. Miller's reports played an invaluable role in the administration's propaganda war. They gave public legitimacy to outright lies, providing what appeared to be independent confirmation of wild speculation and false accusations. "What Miller has done over time seriously violates several Times' policies under their code of conduct for news and editorial departments," wrote William E. Jackson in Editor & Publisher. "Jayson Blair was only a fluke deviation.... Miller strikes right at the core of the regular functioning news machine."

More than that, Miller's false reporting was key to justifying a war. And The Times' unabashed servitude to the administration's war agenda did not end with Iraq.

On September 16, 2003, The Times ran a story headlined SENIOR U.S. OFFICIAL TO LEVEL WEAPONS CHARGES AGAINST SYRIA. The stunningly uncritical article was virtually an excerpt of the testimony about to be given that day by outspoken hawk John R. Bolton, undersecretary of state for arms control. The article included this curious caveat: The testimony "was provided to The New York Times by individuals who feel that the accusations against Syria have received insufficient attention." The article certainly solved that problem.

The author? Judith Miller-preparing for the next battlefront.

Amy Goodman is the host of Democracy Now. She and David Goodman are the authors of Exception to the Rulers.